
Nascida e criada na comunidade do Lixão, em Duque de Caxias, Thamires Gomes carrega no sorriso, no samba e na postura a força de uma mulher negra periférica que transformou oportunidades em conquistas. Sua história com o carnaval começou cedo, aos 16 anos, quando passou a integrar a ala da Acadêmicos do Grande Rio por meio da Pimpolhos, projeto de base da escola que revela talentos e forma novos sambistas.
Aos 18 anos, movida pelo sonho de se tornar passista, Thamires participou do concurso da escola, mas não foi aprovada na primeira tentativa. Em vez de desistir, decidiu se aprimorar na Intendente Magalhães, tradicional palco do chamado “carnaval do povo”, onde ganhou experiência, segurança e ainda mais paixão pela arte de sambar. Persistente, voltou a tentar o concurso da Grande Rio e, no ano do enredo “Quem Nunca?”, conquistou sua vaga, desfilando pela primeira vez como passista do pavilhão onde se criou.
Ao longo de sua trajetória no mundo do samba, Thamires também se destacou como Rainha Afro de Caxias pelo bloco Grupo Afro Cultural e Recreativo Imalê Ifé, organização cultural fundada em 1990 e sediada em Duque de Caxias. A vivência no Imalê Ifé fortaleceu sua identidade, ampliou seu conhecimento sobre cultura afro-brasileira e influenciou diretamente seu trabalho artístico, especialmente nas aulas de dança africana que hoje ministra.
Ainda na adolescência, teve a oportunidade de ser bolsista de ballet clássico por meio da Pimpolhos, realizando o sonho de estudar a modalidade. A formação no ballet contribuiu para sua elegância, postura e técnica — características que hoje marcam sua presença na avenida.
Determinada a ir além do samba, Thamires também investiu nos estudos. Tornou-se técnica de enfermagem e atualmente é acadêmica de Medicina Veterinária, com formatura prevista para este ano, quando apresentará seu Trabalho de Conclusão de Curso. Para ela, o conhecimento é ferramenta essencial de transformação. “Não adianta ter samba no pé sem ter cultura, conhecimento e estudo”, defende.
Literalmente cria do projeto Samba no Pé da Grande Rio, Thamires começou aprendendo a sambar de salto e hoje é uma das instrutoras que ensinam meninas da comunidade a realizarem seus próprios sonhos. Dá aulas de dança africana, elegância, postura e carisma, repassando o que aprendeu ao longo da vida com seus mestres.
Entre suas maiores referências está a professora Santinha, a quem atribui grande parte da sua formação como passista. “Ela me ensinou a ser passista de verdade. Sempre puxou minha orelha quando precisava e me ensinou com rigor e amor”, afirma. Thamires também expressa gratidão ao diretor Avelino, que a orientou na construção de presença de palco e postura, e à ex-diretora Marisa Furacão, que a ensinou a manter a alegria e a energia mesmo diante das dificuldades da vida.
Com orgulho da mulher que se tornou e da passista que construiu ao longo dos anos, Thamires destaca que sua caminhada foi feita com respeito, humildade e gratidão. “Fui chegando devagar, sabendo entrar e sair, respeitando todos e sendo grata a quem me ajudou. Sozinhos não somos ninguém.”
Por trás da artista segura e vibrante, está a base familiar que sempre a sustentou. Filha de pais da área da saúde e funcionários públicos, ela reconhece na mãe sua maior inspiração — foi ela quem a ensinou a andar de salto pela primeira vez e sempre acreditou em seu potencial.

Hoje, Thamires é referência para meninas da sua comunidade, muitas das quais se tornaram passistas inspiradas em sua trajetória. Mais do que brilhar na avenida, ela quer abrir caminhos. Seu sonho é que mais jovens das periferias tenham estrutura, apoio e oportunidades para realizarem seus objetivos — dentro e fora do carnaval.
A história de Thamires Gomes é prova de que talento, disciplina e educação caminham juntos. Da comunidade do Lixão ao posto de passista show do seu pavilhão, ela representa não apenas o samba no pé, mas a força de quem transforma desafios em conquistas e faz da própria trajetória um exemplo de superação e inspiração.




