
Quase três anos após o assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira em Atalaia do Norte, na Amazônia brasileira, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) esteve no local. Apesar de alguns avanços, ainda persistem desafios na implementação eficaz das medidas de proteção. O fortalecimento dos mecanismos de defesa da liberdade de imprensa é indispensável.
Ao lado de suas viúvas, Alessandra Sampaio e Beatriz Matos, a RSF visitou o local onde o jornalista independente britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram encontrados mortos, após uma emboscada em junho de 2022, quando investigavam a pesca ilegal. A missão, realizada de 3 a 7 de agosto, fez parte do monitoramento da implementação das medidas provisórias concedidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) após esse assassinato. No âmbito do grupo de trabalho criado para supervisionar tais medidas, a RSF reuniu-se com beneficiários do programa de proteção, jornalistas locais, lideranças indígenas, defensores de direitos humanos, bem como instituições públicas como o Ministério Público Federal, além de organizações da sociedade civil, gestores públicos e uma delegação da CIDH.
No local, a RSF pôde constatar a dimensão das ameaças persistentes contra os jornalistas locais. A região do Vale do Javari é a segunda maior terra indígena demarcada do Brasil, na fronteira com a Colômbia e o Peru. Ela abriga a maior concentração de povos isolados do mundo. Esse território é constantemente atravessado por conflitos ligados ao narcotráfico, à pesca e ao garimpo ilegais, assim como ao avanço da agroindústria. Jornalistas que cobrem esses temas e denunciam essas atividades criminosas são frequentemente vítimas de ameaças e perseguições.
“A ausência de um compromisso efetivo do mais alto nível do governo brasileiro, bem como a desativação da base regional do programa de proteção, representam uma ameaça direta à segurança dos jornalistas locais que trabalham em zonas de conflito ambiental sensível. Os assassinatos – ainda impunes – de Dom Phillips e Bruno Pereira são a prova disso. A proteção dos profissionais da mídia não pode ser tratada como um assunto secundário. A resposta do Estado deve estar ancorada nas realidades da região e nos riscos concretos enfrentados pelos jornalistas. Apesar de alguns progressos, persistem desafios na implementação efetiva das medidas de proteção. A RSF reforça a necessidade de prorrogar o mandato do grupo de trabalho, a fim de permitir avanços rápidos na adoção de soluções concretas que garantam a segurança do jornalismo ambiental e independente na Amazônia.
Três anos após a morte trágica de Dom Phillips e Bruno Pereira na Amazônia brasileira, assassinados por denunciarem crimes ambientais no Vale do Javari, as nove pessoas denunciadas pela Polícia Federal em novembro de 2024 por esse crime ainda não foram julgadas. Além disso, as reformas necessárias para fortalecer o Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH) — pelas quais a RSF já defendia em setembro de 2023, quando publicou o relatório “Amazônia: Jornalismo em Chamas” — continuam estagnadas.




