Cidades

Babalorixá transforma fé em acolhimento e luta por direitos humanos na Baixada Fluminense

Nascido na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e criado pelos avós de origem indígena e quilombola, o babalorixá e defensor de direitos humanos Luiz Carlos Silva, de 50 anos, construiu uma trajetória marcada pela coletividade, pela resistência e pelo compromisso com o cuidado ao próximo. Desde muito cedo, aprendeu que, diante da ausência e da precariedade das políticas públicas nos territórios periféricos, a organização comunitária e a solidariedade são instrumentos fundamentais de sobrevivência e transformação social.

“Com a dificuldade de acesso a políticas públicas, a gente acabava tomando conta uns dos outros. Eu cresci dentro dessa lógica de articulação coletiva”, relembra. Essa vivência moldou não apenas sua visão de mundo, mas também o caminho que viria a trilhar ao longo da vida.

Ainda na adolescência, Luiz Carlos já demonstrava vocação para a liderança social. Participou ativamente do grêmio estudantil e assumiu responsabilidades dentro da escola, atuando na mediação de conflitos e na organização de atividades coletivas. Formado em Biologia, encontrou na educação um dos principais meios de promover mudanças, atuando por anos na coordenação de projetos interdisciplinares em escolas, sempre com foco na inclusão, na diversidade e no fortalecimento do senso comunitário.

Atualmente, ele mantém um cursinho popular que oferece aulas de idiomas, informática e reforço escolar, ampliando o acesso ao conhecimento para crianças, jovens e adultos da região. Paralelamente, há 15 anos, Luiz Carlos está à frente do Centro de Candomblé Egbé Asé Sango Olukoso Lalu, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Mais do que um espaço religioso, o terreiro se consolidou como um importante ponto de acolhimento social, escuta ativa e proteção para pessoas em situação de vulnerabilidade.

No local, fé e cidadania caminham juntas. O centro religioso desenvolve ações voltadas ao acolhimento da população LGBTQIAPN+, de mulheres, de jovens periféricos e de famílias que encontram no espaço um ambiente seguro, livre de preconceitos e violências. A atuação do babalorixá rompe estigmas históricos associados às religiões de matriz africana, reafirmando o candomblé como território de cuidado, dignidade e resistência.

A própria trajetória pessoal de Luiz Carlos reforça esse compromisso. Ao longo da vida, ele passou por um processo de afirmação como homem gay, enfrentando desafios impostos por uma sociedade ainda marcada pelo preconceito. Sua visão se aprofundou ainda mais ao acompanhar a transição de gênero do filho, fruto de seu primeiro casamento, que nasceu biologicamente como menina e hoje se afirma como homem trans.

“Eu vi de perto a luta dessa transformação. Conversando, ouvindo e acompanhando as experiências vividas por ele, fui despertando ainda mais para as violências, os silenciamentos e as dores que tantas pessoas enfrentam todos os dias”, afirma. A experiência pessoal se transformou em ação concreta, fortalecendo seu engajamento na defesa dos direitos humanos e da diversidade.

Por meio da fé, da educação e do ativismo social, Luiz Carlos Silva segue impactando vidas e transformando realidades na Baixada Fluminense. Seu trabalho mostra que o candomblé vai muito além do aspecto religioso: é também um instrumento de acolhimento, reconstrução de trajetórias e luta por justiça social em territórios historicamente marginalizados.

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