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As pegadas de 23.000 anos que reescrevem a história da presença humana na América

Pegadas humanas encontradas no White Sands National Park, no Novo México, são os mais antigos vestígios da presença humana na região

Por Giovanna Gomes

 

O White Sands National Park, famoso por suas dunas de gesso branco que formam uma das paisagens mais singulares da América do Norte, revelou-se também um dos sítios arqueológicos mais importantes do continente. Foi ali, em meio ao deserto do estado do Novo México, que pesquisadores identificaram as pegadas humanas mais antigas já encontradas na região. A descoberta empurrou para trás, em aproximadamente 10 mil anos, a presença humana conhecida na América do Norte.

As pegadas, é importante mencionar, não são apenas vestígios isolados, mas registros detalhados de comportamento, deslocamento e convivência social. Segundo a paleoecóloga Sally Reynolds, da Universidade Bournemouth, o sítio arqueológico “reescreveu livros de história” ao revelar evidências diretas de como os primeiros habitantes da região interagiam entre si, com o ambiente e com os animais ao redor.

A cronologia é questionada

Durante décadas, acreditou-se que a presença humana mais antiga na América do Norte tivesse cerca de 13 mil anos, associada às culturas paleoindígenas já conhecidas. Como destaca a revista Popular Mechanics, essa cronologia começou a ser questionada em 2021, quando pesquisadores do United States Geological Survey aplicaram técnicas de datação por radiocarbono em sementes e sedimentos encontrados nas mesmas camadas das pegadas. Os resultados apontaram uma idade muito mais remota: cerca de 23 mil anos.

Como a conclusão contrariava modelos consolidados de migração humana, a comunidade científica buscou confirmação adicional. Em 2023, um novo estudo publicado na revista Science reforçou os resultados iniciais ao utilizar uma abordagem independente: a análise de pólen fossilizado de pinheiro preservado nas mesmas camadas de lama endurecida onde estavam as marcas humanas.

A coincidência entre pólen, sementes de gramíneas e as pegadas demonstrou que todos pertenciam ao mesmo período geológico, o que permitiu validar a nova cronologia. Os pesquisadores também recorreram à técnica de luminescência estimulada opticamente, a fim de observar a radiação de fundo no quartzo. Como explica a fonte, quanto mais energia, mais antigo é o achado.

O estudo foi coassinado pelo geógrafo Matthew Bennett, também da Universidade Bournemouth, que destacou a importância de submeter a descoberta a múltiplos testes. Segundo ele, os novos resultados não apenas confirmaram o trabalho inicial, como ampliaram a compreensão sobre os movimentos e o modo de vida dessas populações antigas.

Pegadas encontradas no Novo México – Crédito: Divulgação/NPS

Narrativa cinematográfica

E as pegadas revelam bem mais do que simples deslocamentos. Na verdade, o conjunto encontrado em White Sands forma uma narrativa quase cinematográfica. Há trilhas que revelam crianças brincando próximas a áreas alagadas, adultos caminhando em grupo e caçadores seguindo os rastros de grandes animais da megafauna, como preguiças gigantes já extintas.

Em determinado trecho, os pesquisadores identificaram marcas que indicam que uma jovem carregava uma criança enquanto se deslocava rapidamente sobre o terreno lamacento. “Havia predadores famintos por perto, incluindo lobos gigantes e gatos dentes-de-sabre”, disse Bennett, de acordo com a revista Smithsonian. “Podemos ver onde ela escorregou na lama em certos momentos… Também podemos ver as pegadas da criança onde ela a deixou, presumivelmente porque estava cansada e precisava descansar”, prosseguiu.

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Pegadas bem preservadas

Uma das características mais notáveis do sítio é o nível de detalhes preservados. Algumas pegadas são visíveis a olho nu, enquanto outras permaneciam enterradas e só foram detectadas com radar de penetração no solo, tecnologia que permitiu mapear trilhas inteiras escondidas sob camadas de sedimento.

Esse conjunto de evidências desafia a visão tradicional de que os primeiros humanos do continente viviam apenas em constante luta pela sobrevivência. As marcas indicam também momentos de interação social, deslocamentos em grupo e até atividades que lembram brincadeiras.

Embora o material já analisado tenha transformado o entendimento sobre o povoamento das Américas, os pesquisadores acreditam que o potencial de White Sands está longe de se esgotar. A área ainda guarda extensas regiões não escavadas, e novas tecnologias de detecção podem revelar outros trajetos preservados sob o deserto.

Fonte As pegadas de 23.000 anos que reescrevem a história da presença humana na América – Aventuras na História

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