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As livrarias de rua estão voltando

Com acervo robusto ou especializado, a exemplo do mantido pela Gato Sem Rabo (foto), dedicado a obras escritas por mulheres, os novos estabelecimentos passaram a se concentrar no público leitor, e não no comprador de quinquilharias, como fizeram grandes redes que faliram ao apostar em itens de papelaria e artigos eletrônicos

Mariana Missiaggia

 

O fechamento da unidade mais icônica da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo, no início de 2024, representou o fim de uma era para o mercado de livros. À primeira vista, aquele cenário sugeria que o varejo físico do setor estava com os dias contados. No entanto, uma caminhada pelos bairros de São Paulo revela o oposto. O mercado não morreu. Ao contrário do que se esperava, uma nova onda de aberturas começou a ser vista.

Em São Paulo, novos espaços começaram a surgir. São pequenos e médios estabelecimentos que trabalham com a comunidade e não se enxergam como redes. São operações que podem ser tocadas por um ou dois sócios bem dedicados. São livrarias de bairro, com conceito afetivo, autonomia para funcionar em horários alternativos e com um mix de produtos que varia de acordo com o perfil do público de cada endereço.

Outro ponto em comum dessas lojas é a abertura para autores locais, recebendo livros em consignação de escritores independentes. Também atuam como estabelecimentos de nicho, que trabalham somente com títulos, como a Gato Sem Rabo, com livros escritos por mulheres, a Eiffel, especializada em arquitetura, e a Miúda, voltada ao público infantil.

Há pouco mais de dois anos, as sócias Agatha Kim, Paulina Cho e Yara Hwang deram vida à Aigo Livros, no número 453 da rua Ribeiro de Lima. Totalmente em sintonia com o bairro onde está localizada, o Bom Retiro, a loja se dedica a preservar o movimento histórico da região e é especializada em autores imigrantes. Há mais de 140 anos, o entorno recebe italianos, judeus, coreanos e tantas outras comunidades que deixaram seus países de origem.

Outro desses novos nomes é a Livraria Cheiro de Livro, aberta em dezembro de 2025 em um casarão tombado na avenida Angélica, no bairro de Higienópolis. Livreiro há dez anos, Gustavo Diniz, juntamente com sua esposa, a arquiteta Daniela Camara, fundou a primeira livraria em Jundiaí, no interior de São Paulo, há cinco anos. Além da abordagem literária tradicional, a Cheiro de Livro trabalha bem o conceito presenteável, com embalagens caprichadas em papel e laços chamativos, e também com flores e cartões com mensagens prontas.

“Somos estudiosos, ensaístas e entusiastas e sentimos que o momento é favorável. Fazemos sempre uma autoanálise das finanças da livraria e da profissão com a intenção de crescer. Nascemos no interior, onde a relação com o bairro é diferente. O mercado de São Paulo é mais forte. É um desafio e uma honra entrar para esse circuito”, diz Gustavo.

Agatha Kim e Yara Hwang abriram a Aigo no bairro do Bom Retiro há cerca de dois anos. A livraria é dedicada a obras de autores imigrantes 

 

De acordo com um estudo realizado pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), o estado de São Paulo tem a maior concentração de livrarias do país. O último dado disponível (de 2023) aponta 1.167 estabelecimentos em todo o território paulista. Em 2013, eram 821.

Outros dados, estes do Painel de Varejo de Livros no Brasil, de 2024, mostram alta de 4,4% no volume comercializado na comparação 2024/2023. Foram 5 milhões de unidades em 2024 contra 4,8 milhões em 2023. A receita do setor subiu 8,1%, saindo de R$ 218 milhões para R$ 235 milhões.

Ainda assim, o cenário de sobrevivência dessas livrarias é desafiador, expõe Gustavo. Nos últimos dois anos, um grupo de livrarias de rua de São Paulo uniu forças para discutir as dificuldades comuns ao varejo e fortalecer o ecossistema editorial.

Entre as principais preocupações estão a carência de regulamentação, a falta de políticas públicas de fomento e a concorrência com plataformas digitais, como os marketplaces. Outro ponto são as feiras universitárias que ocorrem ao longo do ano que, ao praticarem descontos agressivos e impraticáveis para o varejo independente, acabam concentrando grande parte do orçamento anual dos leitores.

“Falar em desconto para livro é uma conta que não fecha. É uma indústria que passa por muitas pontas e que gera um valor que não dá para ser mensurado. Então, lidar com esse tipo de concorrência é impraticável”, diz o empresário.

Na nova unidade, em Higienópolis, ele preparou uma ambientação característica das livrarias que estão agradando ao público: um casarão antigo com o cheiro de prateleiras de madeira e livros envelhecidos que, segundo Gustavo, são os toques que acrescentam uma sensação de nostalgia e aconchego típicos desse negócio. No segundo andar, um piano fica disponível para quem quiser tocar. Em Jundiaí, a história não é muito diferente. Eles também estão instalados em um imóvel de 1970 e mantêm o tom intimista que abraça os clientes.

Perda de identidade

Diferentemente de grandes redes, nas quais, além dos livros, boa parte do faturamento vem da papelaria, como material escolar e outros itens de presentes, como jogos, em geral, esse novo rol de livrarias depende unicamente da venda de livros.

A maioria delas também tem a loja física como único meio de venda. Algumas até vendem pela internet ou por WhatsApp, mas ainda têm no presencial seu maior sustento. Ao analisar o momento atual, Rodrigo Bravo, professor de Linguagens da ESPM, diz considerar o renascimento das livrarias de rua como uma resposta ao vácuo deixado pelas grandes corporações.

Sobre os erros estratégicos das grandes redes, ele avalia que a Livraria Cultura e a Saraiva não caíram por falta de público, e sim por má gestão e uma sucessão de escolhas que dissolveram o valor simbólico do livro. Em sua visão, a Saraiva tentou se tornar uma “FNAC tropicalizada”, focando em eletrônicos, enquanto a Cultura investiu pesado no e-reader Kobo. Para completar, ele argumenta que a substituição de livreiros especializados por vendedores genéricos acabou por destruir a experiência do cliente.

“Lembro-me de ter perguntado por uma edição dos poemas de Ricardo Reis, na Livraria Cultura, e o vendedor não saber que se tratava de um heterônimo de Fernando Pessoa. Quando a identidade é corroída, o público que sustenta o negócio se dispersa”, relata Bravo.

Ele também aponta que, ao substituir seções de humanidades por “livros de colorir para adultos” — produtos de giro rápido que geram caixa no curto prazo, mas não fidelizam —, as redes destruíram o valor da marca a longo prazo.

Nesse contexto, ele argumenta que o colapso das grandes redes forçou o mercado a se adaptar. Editoras, cansadas da inadimplência e da falta de capilaridade das gigantes, migraram para modelos B2C (Business to Consumer), criando seus próprios e-commerces e clubes de assinatura. Do outro lado, o leitor consolidou o hábito da compra online, impulsionado pela logística imbatível da Amazon.

Inaugurada há dois anos, a Livraria Eiffel é voltada para as áreas de arquitetura e urbanismo

 

Ainda assim, o professor argumenta que o consumidor urbano, escolarizado e culturalmente ativo, não busca apenas preço, mas sim pertencimento e curadoria humana. Para Bravo, a livraria de rua oferece o que o algoritmo não consegue entregar: o acaso de encontrar inesperadamente um título não procurado; a pausa como refúgio contra a aceleração digital; e a curadoria pela recomendação de um livreiro que entende o livro como forma de vida, não apenas como unidade de estoque.

Nas palavras de Bravo, “a livraria é uma das últimas instituições urbanas que ainda funciona como templo laico da atenção; o preço nunca foi o único vetor de desejo”. Um exemplo de sucesso atual citado pelo especialista é a Martins Fontes, que há dois anos passou a vender livros para o mundo pela Amazon.

Ao ocupar o espaço deixado pela Cultura, a livraria apostou no inverso da estratégia das falidas: reforçou o acervo robusto de filosofia e clássicos, mantendo a identidade focada no leitor hard user, e não no comprador de presentes ocasional.

Ainda assim, viver apenas de vender livros é uma atividade rara, segundo Bravo, pois a margem do livro é baixa e a cadeia logística é cara. Ele lembra que o que ajuda esse novo modelo de negócio das livrarias de rua de São Paulo é se reconhecer como um espaço para cafés e convivência, que gera fluxo e aumenta o tempo de permanência; além de criar eventos e cursos, que criam receita recorrente e comunidade.

“Cheiro de livro e café e toque de papel fecham essa fórmula. Contudo, o café é vetor, não substituto. Se o livro virar souvenir, o espaço perde a alma. As boas livrarias entendem que o café ajuda a estabilizar a operação, mas o livro deve permanecer o centro gravitacional”, alerta Bravo.

Movimento global

Em 2023, a rede de livrarias norte-americana Barnes & Noble abriu uma loja no Upper East Side, bairro nobre de Nova York. O local escolhido foi um espaço de 650 metros quadrados onde antes havia uma drogaria Duane Reade e marcou o retorno da livraria depois de ter fechado uma megaloja a poucas quadras dali, em 2020.

Em meados de 2007, a rede de lojas chegou a ter 800 lojas (hoje, são cerca de 600) e, na década seguinte, fechou cerca de cem unidades. Até que, em 2019, a entrada de um novo CEO na rede, James Daunt, começou um movimento de reversão no negócio, buscando revitalizar o conceito de loja física com uma repaginada no layout e no mix de produtos, que passou a ser mais enxuto e direcionado.

Novo formato de lojas foi apresentado pela Barnes & Noble em 2022

 

Nessa renovação, a rede removeu itens que antes estavam à venda e disputavam a atenção com os livros, como almofadas e cobertores com mensagens e outros presentes. Desde então, a rede passou a trabalhar objetos ligados ao impresso e à leitura.

O novo plano fez com que as vendas de 2022 ficassem “confortavelmente acima” dos números de 2018 e 2019, de acordo com uma entrevista de Daunt ao Publishers Weekly.

Segundo o executivo, a rede também tem conseguido se aproveitar das condições favoráveis do momento, como a maior preocupação com a aparência, o interior e a curadoria das lojas – quanto melhor a loja, melhores as vendas – e a influência do BookTok na comunidade de leitores do país.

Essa subcomunidade dentro do TikTok, em que usuários (BookTokers) fazem vídeos curtos recomendando, analisando e discutindo livros, tem impulsionado a popularidade de obras e influenciado o mercado editorial. Muitos aparecem em seus vídeos mostrando estantes e promovendo a leitura como prazer e não só como obrigação escolar.

Outro desafio, segundo Daunt, é fazer com que os leitores descubram novos livros, e não apenas encontrem os títulos já conhecidos na livraria. Para tanto, acredita ser preciso que as próprias lojas encontrem caminhos para conectar leitores a novos livros. Um objetivo da rede nesse sentido é expandir seus planos de assinaturas e encontrar formas de se comunicar melhor com os assinantes.

Fonte: https://dcomercio.com.br/publicacao/s/as-livrarias-de-rua-estao-voltando

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