Três anos após o ataque de 7 de outubro de 2023, as marcas do massacre continuam presentes na sociedade israelense e também no cenário político do país. A poucos dias das eleições legislativas, marcadas para 27 de outubro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu alerta para a possibilidade de novos ataques do Hamas e afirma que o grupo pode tentar interferir no processo eleitoral.
Na manhã de 7 de outubro de 2023, cerca de 3.800 integrantes das forças Nukhba, consideradas a tropa de elite do Hamas, e outros 2.200 militantes de grupos armados invadiram o sul de Israel a partir da Faixa de Gaza. A ofensiva ocorreu por terra, mar e ar e deixou 1.195 mortos, segundo os dados apresentados no texto.
O ataque provocou profundas consequências políticas e sociais e se tornou um dos principais pontos de debate sobre o governo de Netanyahu.
Netanyahu prevê tentativa de influência nas eleições
As eleições de 27 de outubro vão definir os 120 assentos da Knesset, o Parlamento israelense. Integrantes da oposição passaram a questionar a permanência de Netanyahu no cargo após uma investigação concluir que os Emirados Árabes Unidos haviam alertado o primeiro-ministro sobre a possibilidade de um ataque do Hamas cerca de dez dias antes do massacre.
Netanyahu, por sua vez, afirmou que o grupo palestino poderia tentar realizar novos ataques antes da votação.
“Justamente por ser tão fraco, o Hamas tentará nos desafiar com os remanescentes de suas forças antes das eleições, numa tentativa de influenciá-las”, declarou.
O primeiro-ministro também prometeu responder com “tremenda força” a eventuais novos ataques.
Impacto político do massacre
Para o cientista político Eytan Gilboa, da Universidade Bar-Ilan, Netanyahu falhou ao não impedir o ataque de 7 de outubro.
“Em qualquer democracia liberal, ele teria renunciado. Mas membros da oposição que se uniram ao seu governo, imediatamente depois do massacre, o salvaram. Isso pode afetar suas chances na eleição de 27 de outubro, mas apenas marginalmente”, afirmou.
Segundo Gilboa, Netanyahu também se posicionou contra a criação de uma comissão de inquérito para investigar as falhas que antecederam o ataque.
O especialista avaliou ainda que o primeiro-ministro busca atribuir parte da responsabilidade pelo ocorrido às Forças Armadas e às agências de segurança, enquanto destaca resultados militares em diferentes frentes do conflito.
A analista política Dahlia Scheindlin, colunista do jornal Haaretz, também considera a condução do episódio de 7 de outubro um dos principais pontos de fragilidade de Netanyahu na disputa eleitoral.
Segundo ela, porém, a queda na popularidade do primeiro-ministro já vinha ocorrendo antes do massacre, enquanto o apoio à coalizão governista havia perdido força no início de 2023.
“O massacre fez com que a imagem do premiê piorasse muito. Sua coalizão apresenta um desempenho melhor do que nos primeiros seis meses após o 7 de outubro, mas não o suficiente para vencer”, afirmou Scheindlin.
A analista acrescentou que o ataque se tornou, para muitos israelenses, parte de um conjunto de fatores que explicariam a rejeição aos partidos da coalizão governista.
Sobreviventes relatam traumas
Enquanto o episódio continua sendo debatido no campo político, sobreviventes do ataque relatam mudanças profundas em suas vidas e procuram se concentrar na recuperação dos traumas.
Michal Rahav, moradora do kibbutz de Nirim, a cerca de dois quilômetros da Faixa de Gaza, afirmou que mantém lembranças detalhadas daquela manhã.
“Eu me recordo do cheiro, dos barulhos, da sensação intensa de desesperança. Nós sobrevivemos graças ao meu marido, herói, que lutou contra os terroristas em nossa casa”, contou.
Segundo ela, a experiência mudou a forma como passou a enxergar a vida.
“Desde então, tudo mudou em nossas vidas. Saber que poderíamos ter perdido tudo em questão de segundos faz você encarar a vida de outra forma, sem desperdiçá-la com raiva e medo. Tento me sentir mais esperançosa, positiva e grata”, afirmou.
Rahav também relembrou o momento em que precisou deixar sua casa, que descreveu como um local onde crianças costumavam andar de bicicleta e caminhar descalças.
“Eu me deparei com uma zona de guerra, com destruição por toda parte, colunas de fumaça subindo aos céus, carros incendiados e corpos à beira da estrada”, relatou.
Jovem perdeu quatro amigos no ataque
Yoni Diller, de 31 anos, estava na rave Festival Nova, no kibbutz de Re’im, a cerca de um quilômetro de Gaza, quando os ataques começaram.
“Às 6h30 daquele 7 de outubro, os foguetes foram disparados. Em minutos, percebemos que algo muito maior estava acontecendo”, contou.
Diller trabalhava como voluntário na operação de um drone ao lado de um amigo, Nadav. Os dois decidiram fugir e levaram quatro horas e meia para percorrer cerca de 24 quilômetros.
“Perdi quatro amigos naquela manhã”, afirmou.
Para ele, superar o trauma não significa apagar as lembranças.
“Eu aprendi que curar-se não significa esquecer. Mas saber como carregar o que aconteceu e, ainda assim, escolher a vida”, disse.
Após o ataque, Diller passou a viajar para compartilhar sua experiência e falar sobre Israel e a comunidade judaica. Também se casou e iniciou uma nova etapa de sua vida.
“Para mim, escolher o amor, a família, a esperança e a vida após o 7 de outubro faz parte da minha resposta ao que aconteceu”, afirmou.
Família passou mais de 22 horas em quarto seguro
Galia Sopher estava acampada com as duas filhas nas proximidades do kibbutz Mefalsim quando os ataques começaram. A família seguia a tradição de Sukkot, que rememora os 40 anos de êxodo dos hebreus pelo deserto.
O marido havia permanecido em casa, em Mefalsim. Segundo Galia, por volta das 6h30, ela e as filhas foram acordadas pelas sirenes e pelos foguetes.
“Por instinto, simplesmente me lancei sobre minhas filhas para protegê-las com meu corpo. Tentei ligar para meu esposo, para que viesse nos buscar, mas não havia sinal de celular”, relatou.
Uma equipe de segurança do kibbutz conseguiu levá-las para casa. A família permaneceu por mais de 22 horas dentro do quarto seguro.
“Escutávamos explosões e disparos de metralhadora do lado de fora e, em certo momento, compreendemos que havia terroristas dentro do kibbutz”, contou.
Galia, o marido e as filhas foram retirados de Mefalsim sob escolta militar na madrugada de 8 de outubro.
Durante a saída, a família viu carros queimados e corpos espalhados pelas estradas.
“Ainda não sei como sobrevivemos quando tantas outras famílias não sobreviveram. Tivemos uma sorte incrível”, afirmou.





