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Nos EUA, Flávio participa de audiência pública no USTR para discutir tarifaço

Senado tenta articular encontro com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, antes da audiência, na expectativa de avançar nas negociações sobre as tarifas

O senador e pré-candidato ao Palácio do Planalto Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participa nesta segunda-feira (6), em Washington, de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), acompanhado por representantes do agronegócio brasileiro. Aliados do parlamentar consideram a agenda estratégica para reforçar sua atuação no cenário internacional e acreditam que ela pode fortalecer sua imagem política.

Nos bastidores, existe ainda a expectativa de que Flávio consiga se reunir, antes da audiência, com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. A avaliação de seus aliados é que esse encontro poderia abrir espaço para algum avanço nas discussões sobre o tarifaço imposto aos produtos brasileiros.

Enquanto isso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha com cautela a expectativa em torno da decisão norte-americana prevista para o próximo dia 15. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, as negociações entraram em uma etapa decisiva, mas fatores políticos passaram a ter peso semelhante aos argumentos técnicos apresentados pelo Brasil.

O resultado poderá impactar diretamente setores exportadores, influenciar o futuro das negociações entre os dois países e intensificar o debate político sobre a relação da família Bolsonaro com a administração de Donald Trump.

Integrantes do governo avaliam que a investigação conduzida pelos Estados Unidos encontra dificuldades para justificar, do ponto de vista comercial, a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A argumentação se baseia no fato de que os EUA mantêm superávit na balança comercial com o Brasil, o que, na visão do Planalto, reduz os fundamentos para a adoção de sanções por supostas práticas comerciais desleais.

Mesmo assim, auxiliares do presidente Lula entendem que a discussão ultrapassou a esfera econômica. Na avaliação do governo, parte da administração Trump passou a enxergar o tema também sob um viés político e ideológico, especialmente diante da proximidade das eleições presidenciais brasileiras. A percepção é de que, enquanto os órgãos técnicos seguem dialogando com o governo brasileiro, setores políticos utilizam o tema como instrumento de pressão no cenário eleitoral.

Nesse contexto, a atuação de Flávio Bolsonaro junto às autoridades norte-americanas é acompanhada com preocupação pelo Planalto. Reservadamente, integrantes do governo avaliam que a iniciativa contribuiu para aproximar ainda mais a pauta comercial da disputa política interna. Segundo essa leitura, ao defender o adiamento ou a suspensão das tarifas sob o argumento de que elas poderiam favorecer Lula, o senador também passou a dividir a responsabilidade por um eventual insucesso das negociações, caso as medidas sejam mantidas.

Cartada decisiva

Para especialistas, a viagem representa uma tentativa de reposicionar a campanha de Flávio Bolsonaro e minimizar os efeitos dos desgastes políticos recentes.

Na avaliação do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), a estratégia busca deslocar o foco do debate público após episódios como o caso Dark Horse e a repercussão do vídeo de Michelle Bolsonaro, direcionando a atenção para temas ligados à economia e às relações internacionais.

“A viagem busca mudar o eixo da campanha. Uma tentativa de virar a página dos desgastes recentes. Depois do caso Dark Horse e da crise provocada pelo vídeo de Michelle Bolsonaro, a candidatura de Flávio aposta nas agendas econômica e internacional como forma de sair da defensiva”, afirmou Medeiros.

Segundo o pesquisador, a ida a Washington também procura disputar espaço na narrativa sobre a defesa dos interesses nacionais diante das recentes tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

“É exatamente essa aposta que Flávio Bolsonaro faz ao ir até lá. Ele também tenta impedir que Lula fique sozinho no discurso da defesa da soberania nacional. Ao viajar aos EUA, procura transmitir a imagem de quem busca uma solução concreta para o tarifaço e para as discussões envolvendo o Pix”, disse.

Apesar disso, Medeiros ressalta que a estratégia também aumenta a expectativa por resultados concretos.

“O risco é a expectativa criada. Se a viagem terminar sem qualquer avanço concreto, a campanha de Lula vai colocar em xeque a liderança de Flávio junto à Casa Branca. Flávio precisa voltar ao Brasil acompanhado de algum resultado perceptível para produzir ganhos duradouros”, concluiu.

Nos bastidores, integrantes do Executivo afirmam ainda que a estratégia adotada pela oposição na relação com Washington teria colocado o Brasil “na linha de tiro” da administração norte-americana desde o ano passado. Segundo essa avaliação, as iniciativas para internacionalizar o embate político acabaram produzindo efeitos contrários aos esperados e ampliaram a sobreposição entre a agenda comercial e a disputa eleitoral.

Ao mesmo tempo, o governo mantém a aposta no diálogo técnico. Na última quarta-feira, representantes brasileiros apresentaram ao USTR um “mapa do caminho” com medidas destinadas a reforçar garantias de que as políticas investigadas não geram discriminação contra empresas americanas nem provocam distorções comerciais. De acordo com fontes do Planalto, a proposta amplia compromissos já assumidos pelo Brasil e busca criar uma base para a continuidade das negociações, independentemente da decisão que será anunciada neste mês.

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