
Éric Moreira
Há quase exatos 40 anos, aconteceu na Ucrânia, na época parte da União Soviética, o que ficou eternizado na história como o maior acidente nuclear da história: o desastre de Chernobyl. No dia 26 de abril de 1986, o reator nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl lançou material radioativo sobre a Europa após uma explosão carastrófica, sendo classificado como nível 7 (o máximo) na Escala Internacional de Eventos Nucleares.
Agora, quatro décadas depois, a região de Chernobyl deixou de ser apenas um símbolo de tragédia para se tornar também um espaço de pesquisa científica, contenção ambiental e até turismo controlado. Ainda assim, os impactos do acidente permanecem visíveis — tanto na paisagem quanto nas restrições que cercam a área.

Transformação da região
Antes de 1986, Chernobyl era uma localidade sem grande relevância. Isso mudou drasticamente após a explosão do reator, que transformou a região na chamada zona de exclusão, com um raio de 30 quilômetros ao redor da usina. Inicialmente completamente isolada, a área hoje é parcialmente acessível ao público, sob rígido controle. Cidades como Pripyat permanecem praticamente intactas desde a década de 1980, com edifícios, escolas e praças sendo lentamente tomados pela vegetação.
Esse cenário contribuiu para o surgimento do chamado turismo de conscientização, atraindo cerca de 85 mil visitantes por ano interessados em conhecer de perto os efeitos do desastre. Nos últimos anos, no entanto, esse fluxo diminuiu em função da instabilidade geopolítica na Ucrânia, repercute a Exame.
Apesar da imagem associada à radiação extrema, grande parte da zona de exclusão apresenta níveis significativamente reduzidos de contaminação. Em cerca de 90% da área, a radiação caiu ao longo das décadas devido à decaída natural dos materiais radioativos. Em locais como Pripyat, a exposição atual pode ser comparável à de um exame de raio-X, embora a permanência ainda seja limitada por questões de segurança.
Áreas de risco
Já nas proximidades do reator, o acesso continua altamente restrito. Nessas áreas, persistem riscos associados tanto à radiação no ar quanto a “pontos quentes” no solo e em objetos contaminados. Para conter esses perigos, foi construída uma estrutura conhecida como Novo Confinamento Seguro (NSC), um enorme arco de aço que cobre o reator destruído.
A segurança dessa estrutura, no entanto, voltou a ser motivo de preocupação recente. Em fevereiro de 2025, um ataque com drone danificou o escudo protetor do reator 4. Embora medições tenham indicado níveis de radiação dentro do normal, relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica apontaram que a capacidade de contenção foi comprometida, exigindo novas intervenções na área.
Mesmo com essas limitações, cerca de 2.700 trabalhadores continuam atuando na região, muitos vivendo em regime de turnos para reduzir a exposição acumulada à radiação. Eles são responsáveis por monitoramento, manutenção e projetos de contenção.

Transformações ambientais
Outro aspecto que chama atenção é a transformação ambiental da zona de exclusão. Sem presença humana constante, a área passou a abrigar uma diversidade crescente de vida selvagem.
Espécies como lobos, linces, ursos-pardos e cavalos-de-przewalski voltaram a ocupar o território, enquanto a vegetação avança sobre estruturas abandonadas. Em muitos casos, o risco estrutural dos prédios em ruínas representa um perigo maior para visitantes do que a própria radiação.
Ainda assim, algumas áreas permanecem extremamente perigosas. A chamada Floresta Vermelha, por exemplo, segue interditada devido à alta contaminação do solo, e é proibido sair das rotas estabelecidas durante visitas.
Desde então, milhares de trabalhadores, conhecidos como “liquidadores”, participaram das operações de contenção, incluindo a construção do primeiro sarcófago que isolou o reator. Décadas depois, o Novo Confinamento Seguro passou a desempenhar essa função, embora agora enfrente novos desafios após os danos recentes.
Quarenta anos depois, Chernobyl permanece como um lembrete permanente dos riscos da energia nuclear quando falhas humanas e técnicas se combinam — e como seus efeitos podem atravessar gerações.





