
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) falou sobre a sua eleição para presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. De acordo com a parlamentar, sua “nomeação foi contaminada por um discurso odioso”. A declaração foi feita durante participação, na noite desta segunda-feira (30), no programa Roda Viva, da TV Cultura.
“Tentaram fazer [uma distração], tentaram fazer uma distração com o que de fato era importante e prioritário para a Comissão. Nós temos um espectro no Brasil que não consegue compreender algumas movimentações”, avaliou.
“Do ponto de vista do que essa deputada tem de políticas públicas para as mulheres, foi completamente contaminado por um discurso odioso, de que talvez por ser uma mulher trans eu fosse menos mulher e menos capaz de representar os direitos das mulheres”, acrescentou.
A deputada também afirmou ter identificado perfis de extrema-direita em redes sociais que pagaram para impulsionar discursos de ódio contra ela nas redes sociais. Ela declarou que existe um dossiê com material que comprova o envolvimento de deputados federais, estaduais e vereadores de vários municípios do Brasil no financiamento desses conteúdos.
Segundo a parlamentar, a onda de críticas não foi espontânea:
“Há um dossiê, um material vasto de parlamentares dos mais diversos campos do Poder Legislativo Federal, Estadual, Municipal, de vários municípios do Brasil, que financiaram, que pagaram, que impulsionaram discursos de ódio contra mim”, afirmou.
“Esses parlamentares, que deveriam prezar pela dignidade de todas as pessoas em um Estado democrático de Direito, utilizaram dinheiro para circular discursos de ódio em alta velocidade por meio de grandes empresas de tecnologia”, disse.
Durante o programa ela também falou a respeito da resposta das instituições em relação aos casos de violência e ameaças que a comunidade LGBTQIA+ enfrenta.
“Há omissão e há um certo desprezo a uma determinação feita pelo Supremo Tribunal Federal. Era importante que o STF não permitisse que alguns órgãos do Judiciário debochassem de sua decisão, porque, quando acionamos o Judiciário, esperamos que se faça cumprir aquilo que foi determinado pela Suprema Corte, quando equiparou a transfobia e a LGBTfobia ao crime de racismo”, disse.
“Estamos diante da dificuldade de fazer valer os nossos próprios direitos, porque conquistamos esse direito e agora precisamos brigar por ele. Precisamos brigar pelo direito de exercer esse direito. Há uma determinação: LGBTfobia e transfobia são consideradas crime e, quando vamos recorrer, em algumas instâncias nem sempre temos a resposta que achamos que deveria ser diante de um crime”, constatou a deputada.
Ela ainda comentou o andamento da proposta que prevê a redução da jornada de trabalho no modelo 6×1 e avaliou o avanço do tema no Congresso Nacional. Autora da PEC, a parlamentar afirmou que a pauta enfrentou resistência no início, mas ganhou força após estudos técnicos.
“No começo dessa discussão, muita gente tratou esse debate como se eu fosse uma doida. As pessoas não esperavam que eu tivesse buscado economistas, autoridades no tema, que eu tivesse estudado, pesquisado e tentado encontrar um caminho para que essa discussão avançasse”, disse.
Segundo Hilton, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já sinalizou apoio à tramitação da proposta.
“Ele se comprometeu publicamente e também nos bastidores a levar essa matéria para ser aprovada ainda no primeiro semestre”, afirmou.
A deputada também destacou que o governo passou a compreender a relevância do tema ao longo do tempo, especialmente diante de experiências internacionais. De acordo com ela, países que adotaram mudanças na jornada de trabalho registraram resultados positivos quando a transição foi feita de forma gradual e organizada.
Hilton afirmou ainda que buscou construir o debate com base em dados e diálogo institucional. “Acho que fui uma peça importante. Em vez de pressionar e brigar com o governo, fui pedindo subsídios e insumos. Quando os dados foram produzidos, mostraram que a matéria não só se sustenta, como poderia ser abraçada pelo presidente da República”, completou.




