Cidades

Abaixo-assinado de moradores de Teresópolis reúne mais de 13 mil pessoas contra construção de prédios com até 20 andares

Felipe Galeno

 

Alvo de uma recomendação do Ministério Público do Rio (MPRJ) e de uma ação popular, a lei que permite a construção de prédios de até 20 andares em Teresópolis também é tema de um abaixo-assinado que já conta com o apoio de mais de 13 mil pessoas. A iniciativa, organizada por moradores do município, pede a revogação da norma, que foi sancionada em dezembro.

A nova lei permite que edifícios de até 60 metros de altura sejam construídos em dois trechos do bairro do Alto. O novo gabarito ultrapassa o limite de oito andares para prédios da região, estabelecido pelo plano diretor do município. A permissão vale para os trechos entre a Rua Alfredo Rebello Filho e a Rua Hidelgardo de Noronha; e entre a Rua Augusto do Amaral Peixoto e a Rua Sloper.

Membros da Associação de Moradores e Amigos da Posse (Amaposse) se reuniram na última terça (13) para discutir sobre a norma. Segundo a presidente do grupo, a advogada Márcia Peixoto, o encontro foi aberto ao público e reuniu cerca de 100 pessoas. Um convite para a reunião foi enviado aos parlamentares da Câmara de Teresópolis. A vereadora Professora Amanda (Republicanos) foi a única a comparecer.

“Convidei todos os vereadores, justamente na expectativa de abrir um diálogo em que eles pudessem explicar a motivação dessa lei, mas infelizmente apenas uma vereadora compareceu”, conta Márcia.

Proposta prevê construção de novos edifícios no bairro do Alto
Proposta prevê construção de novos edifícios no bairro do Alto – Foto: Reprodução/Google Maps

Moradores temem impacto ambiental dos grandes prédios

Entre os principais receios dos moradores, está o impacto que novos empreendimentos imobiliários podem ter na preservação ambiental do bairro, que fica às margens do Parque Nacional da Serra dos Órgãos – uma das principais áreas de conservação de mata atlântica na Região Serrana.

O geógrafo José Antônio Sena, que faz parte da Diretoria de Geociências do IBGE e mora no bairro do Alto, conta que, mais do que esconder a paisagem da serra, os novos prédios podem sobrecarregar a rede de esgotamento sanitário, o que pode provocar prejuízos para o bioma.

“A área é uma zona de amortecimento do Parque Nacional. Portanto, além da parte da beleza ‘cênica’ que a gente vai perder totalmente, temos questões de alterações significativas que podem afetar o ambiente. Como é que você vai fazer prédios altos numa cidade que ainda não tem estrutura de esgoto ou de tratamento de águas pluviais adequadas?”, destaca o morador.

De acordo com o MPRJ, Câmara e Prefeitura não apresentaram estudos técnicos que justificassem a alteração arquitetônica e não consultaram o Conselho Municipal. O biólogo e morador de Teresópolis Ivo Arja acredita que a falta de transparência quanto à avaliação de risco ambiental acende um alerta para possíveis violações das condições naturais da região.

“Há essa questão: foi feito um estudo de impacto ambiental? Foram feitos relatórios? Numa cidade que ainda tem um saneamento básico fragilizado, aumentar ainda mais essa demanda é realmente preocupante. Há possibilidade de contaminação dos rios”, destaca Ivo.

Para moradores, medida indica favorecimento de interesses especulativos em Teresópolis

Outro morador de Teresópolis, o advogado Yuri Guilherme Cavalcante, destaca que a falta de consultas aos moradores sobre a medida contraria princípios legais da Constituição e do próprio estatuto do município. Ele e os outros moradores acreditam existir um interesse por trás da lei para beneficiar a especulação imobiliária no território.

“Essa tramitação acelerada e sem debate público aponta para a prevalência de interesses econômicos e especulativos, possivelmente ligados ao mercado imobiliário, em detrimento do interesse coletivo. Trata-se de uma lógica de cidade enquanto mercadoria, incompatível com os princípios constitucionais da função social da propriedade e da cidade”, afirma Guilherme.

“Não são os interesses da população e não são os interesses do planejamento urbano. São interesses escusos, financeiros, ligados a uma especulação imobiliária desenfreada e a pessoas que não vão nem se apropriar da qualidade de vida que a gente ainda tem aqui em Teresópolis. Se tivesse acontecido o trâmite normal das análises que deveriam ser feitas e não foram, essa lei não passaria”, opina José.

Procurada, a Prefeitura de Teresópolis não se posicionou sobre a medida até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para resposta.

Fonte: https://temporealrj.com/abaixo-assinado-de-moradores-de-teresopolis-reune-mais-de-13-mil-pessoas-contra-construcao-de-predios-com-ate-20-andares/

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