
A gestão de parques nacionais por meio de concessões tem sido uma estratégia crescente no Brasil para melhorar a infraestrutura e promover a conservação ambiental de áreas protegidas. No entanto, o modelo também desperta questionamentos sobre seus impactos nas comunidades locais e na governança desses espaços.
Samuel Lloyd, ex-aluno do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade (MPGC), com ênfase na Linha de Sustentabilidade, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), investigou esses impactos nos Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral, localizados na região sul do Brasil. Seu estudo, focado na percepção da comunidade local sobre os serviços públicos prestados nas concessões, revelou avanços e desafios significativos.
Avanços nas concessões: infraestrutura e sustentabilidade ambiental
Os resultados da pesquisa indicam que as concessões tiveram avanços consideráveis, especialmente no que se refere à infraestrutura dos parques e à sustentabilidade ambiental. A implementação do modelo de concessão, segundo Lloyd, tem contribuído para a melhoria das instalações e dos serviços turísticos, permitindo uma melhor infraestrutura para os visitantes e, consequentemente, ampliando a capacidade de gestão do ecossistema. A gestão por empresas especializadas tem trazido também benefícios ambientais, com o fortalecimento de iniciativas voltadas à conservação de áreas naturais e à proteção da biodiversidade local.
“Observamos um aumento na qualidade das instalações e nos serviços ambientais prestados. As concessões ajudam na manutenção de áreas preservadas, além de aumentar a visibilidade do turismo sustentável, o que pode gerar mais receita para a região”, comenta Samuel Lloyd.
Desafios: governança, comunicação e engajamento da comunidade local
Apesar dos avanços, a pesquisa identificou também grandes desafios em relação à governança dos contratos e à comunicação com as comunidades locais. Muitos moradores do entorno dos parques, segundo a pesquisa, ainda sentem-se excluídos do processo de gestão e das decisões relativas ao uso dos recursos naturais. A falta de um diálogo contínuo e a percepção de que os benefícios das concessões não são totalmente distribuídos para as populações locais podem gerar resistências e até mesmo desconfianças sobre a eficácia do modelo.
Lloyd aponta que, para que as concessões realmente funcionem de forma eficaz, é necessário não apenas ter uma gestão profissional da parte das concessionárias, mas também garantir que o poder concedente, ou seja, o governo, tenha uma atuação fiscalizadora e presente. “É essencial que a presença do estado seja constante, com fiscalização eficiente, e que as concessionárias sigam à risca os ritmos contratuais e cumpram suas responsabilidades para que os benefícios sejam aproveitados de forma justa”, explica o ex-aluno.
Outro ponto crítico abordado por Lloyd foi a importância da educação ambiental para a conscientização da comunidade local. Trabalhar de perto com os moradores, envolvendo-os no processo de conservação e explicando os motivos da concessão e suas vantagens, é uma estratégia essencial para garantir o sucesso a longo prazo do modelo.
A experiência da FGV: formação e aplicação no mercado
O Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade da FGV EAESP, na Linha de Sustentabilidade, foi fundamental para Samuel Lloyd no desenvolvimento de sua pesquisa e na aplicação dos conhecimentos adquiridos. “A FGV me deu a base teórica e prática necessária para compreender a complexidade dos modelos de gestão sustentável e aplicá-los diretamente no meu trabalho atual”, afirma.
Hoje, como diretor da Urbia Parques, uma empresa que gerencia cinco contratos de concessão de parques naturais e urbanos no Brasil, Lloyd tem a oportunidade de aplicar em seu dia a dia as ferramentas de gestão e estratégias de sustentabilidade aprendidas na FGV. A Urbia Parques é responsável pela administração de áreas de preservação em todo o território brasileiro, e a experiência adquirida no mestrado tem sido essencial para lidar com os desafios operacionais e garantir que os contratos de concessão sejam bem-sucedidos.
A presença humana na conservação: um modelo em evolução
Outro achado importante da pesquisa de Samuel Lloyd foi a constatação de que a presença humana nas áreas protegidas, ao contrário do que muitos imaginam, não necessariamente prejudica a conservação ambiental. A pesquisa mostrou que a gestão responsável e o uso sustentável dos recursos naturais podem coexistir com a presença humana, desde que existam políticas claras de educação ambiental, gestão eficiente e participação comunitária.
“O grande desafio é equilibrar a conservação com o uso sustentável do espaço. A gestão pública e privada precisa trabalhar de forma conjunta e comprometida para criar soluções que atendam às necessidades de conservação, enquanto também promovem a qualidade de vida para os moradores locais”, enfatiza Lloyd.
Investimentos e soluções para aprimorar o modelo de concessão
Para aprimorar o modelo de concessão, Samuel Lloyd acredita que é necessário investir de forma significativa em diálogo com as comunidades e em programas de educação ambiental que ajudem a explicar os benefícios das concessões. Além disso, a presença constante do estado e uma gestão eficiente por parte das concessionárias são componentes chave para o sucesso do modelo.
“Os contratos de concessão podem ser uma excelente ferramenta para a preservação ambiental, mas devem ser acompanhados de perto para garantir que as comunidades do entorno se beneficiem, de fato, do modelo e se sintam parte do processo. Investir na relação entre gestores, concessionárias e as comunidades é fundamental para o sucesso de longo prazo”, conclui Samuel Lloyd.




