
Entre 1939 e 1945, o mundo presenciou um dos maiores conflitos armados de toda a história humana, que deixou um rastro de desastre por grande parte da Europa: a Segunda Guerra Mundial.
Neste conflito, a maioria das nações do mundo foram envolvidas, incluindo todas as grandes potências, que se dividiram em duas alianças militares opostas: os Aliados (liderado pelos Estados Unidos e o Reino Unido, juntamente à extinta União Soviética) e o Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
E, por mais que hoje muitos pensem que, mesmo que o mundo fique em grande caos, o Brasil permanecerá intacto e distante de guerras; nessa época, tropas brasileiras também adentraram à guerra, lutando ao lado dos Aliados. Esses combatentes formavam a Força Expedicionária Brasileira (FEB) — que ficaram especialmente conhecidos como “pracinhas” —, que chegaram na Itália há exatos 81 anos, em 16 de julho de 1944.

O Brasil entra na guerra
Segundo o El Pais, o Brasil entrou em conflito oficialmente em agosto de 1942, com a declaração de guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista logo após um incidente em que 607 pessoas morreram após o Eixo atacar navios brasileiros em uma área do Atlântico no extremo sul da África.
O então presidente brasileiro era Getúlio Vargas, que, inicialmente, havia declarado neutralidade no conflito, tendo inclusive chegado a flertar com o fascismo em 1939, visto que tinha muitos simpatizantes do Eixo entre seus mais próximos colaboradores; mas a declaração de guerra só viria anos depois, após a tragédia no sul da África.
Nesse contexto, um marco simbólico de declaração de apoio aos Estados Unidos se deu em janeiro de 1943, quando o então presidente norte-americano Franklin Roosevelt fez uma visita à cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, onde ajudou a efetivar com Vargas a criação da FEB.
Além disso, um detalhe importante é que, sobre a mesa, também havia grandes empréstimos norte-americanos para colaborar na modernização de projetos de siderurgia brasileiros, que posteriormente resultariam na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), além da permissão para a instalação de bases militares dos Estados Unidos por aqui.

Chegando na Itália
No fim de 1943, uma missão de oficiais foi para a Itália, antes de, finalmente, o primeiro contingente dos pracinhas partir para a Itália. Eles desembarcaram no país no dia 16 de julho de 1944, após uma viagem de 14 dias em um navio, e marcaram por ser a única frente da América do Sul nos campos de batalha.

Lá, os membros do contingente foram integrados ao 5º Exército dos Estados Unidos, e recepcionados em Nápoles com uma banda marcial norte-americana — que se esforçou para executar músicas brasileiras e manter o clima festivo, mesmo em meio aos horrores da guerra.
Inclusive, um fato que chamou grande atenção dos soldados americanos foi a integração racial completa do lado brasileiro. “Ficamos junto com o Exército negro norte-americano, um batalhão especial criado por causa da segregação. Quando jogávamos bola e levantávamos (na hora do gol) um soldado amigo nosso apelidado de Chocolate, o pessoal de lá não acreditava na nossa integração”, disse Julio do Valle, um dos soldados brasileiros que combateu na Segunda Guerra, ao El Pais.
Ao todo, a FEB enviou 25 mil soldados para combater na Segunda Guerra, dos quais mais de 1.500 sequer voltaram para casa, morrendo em terras estrangeiras. Outros 2.700 foram feridos ou passaram o resto de suas vidas mutilados.
Vale mencionar ainda que os pracinhas foram chamados assim, como sendo um diminutivo de praça, ou “soldado raso“. Este foi um termo carinhoso adotado pela imprensa e pela população da época, tendo em vista que estes soldados embarcaram rumo ao desconhecido, na Europa.
Outro detalhe relevante sobre a FEB é que o próprio símbolo que adotaram — um escudo com o desenho centralizado de uma cobra fumando um cachimbo — surgiu como uma provocação àqueles que diziam ser mais fácil uma cobra fumar do que o país entrar em guerra, tendo em vista o caráter pacifista e conciliador que o Brasil sempre teve com relação ao conflito.

Dificuldades
Julio do Valle relatou ao El Pais que, quando os pracinhas chegaram para o conflito, devido ao fato de o Brasil não ter se envolvido em guerras até então, “ninguém sabia o que era um combate, dos generais aos soldados mais rasos. Aprendemos a guerrear nas dificuldades”.
Entre os obstáculos enfrentados, além da constante ameaça das tropas inimigas, estava o fato de que, não bastassem brasileiros não serem acostumados a frios intensos, aquele ter sido o inverno mais rigoroso em quase 50 anos da região, com uma média de 20 graus negativos nos Apeninos italianos.
“Sofríamos bastante com as baixas temperaturas. A neve chegava até o joelho. Recebemos uma capa de gabardina grande, horrível, de 12 quilos e que com a chuva ficava muito pesada para carregar”, contou Julio do Valle. “Quando o comando norte-americano viu aquilo, mandou recolher na hora as gabardinas”.

Além disso, outro infortúnio se relacionou aos uniformes dos militares brasileiros, que eram parecidos com os do Exército alemão. “Chegaram a jogar pedra na gente em Nápoles pensando que éramos os invasores”, segundo Julio do Valle.
“Libertadores” vitoriosos
Apesar do infame episódio em que os soldados brasileiros foram apedrejados, isso acabou sendo apenas um mero detalhe na história da atuação brasileira na Itália. Em vez disso, o que mais ficou marcado foi a empatia entre as forças brasileiras e os povoados por onde passaram — alguns que, inclusive, ergueram monumentos em homenagem à FEB.
Além disso, os relatos de socorro médico à população não foram poucos. “O que nos impressionou foi uma Itália completamente arrasada. Desde o começo nos pediam coisas para comer e praticamente tudo o que tínhamos nas marmitas que recebíamos dávamos para eles, principalmente às crianças. Os italianos nos consideravam libertadores“, contou João Ferreira de Albuquerque, presidente da associação de ex-combatentes brasileiros em São Paulo.
Julio do Valle, por sua vez, recordou uma ocasião em que ajudou um senhor que reclamava de dor devido a uma grave infecção. “Entramos na casa de um italiano para confraternizar e um senhor não parava de gemer no quarto. O problema era no braço. Ele já havia tentado de tudo, mas não adiantava. Limpamos a região com iodo e cuidamos dele. Apesar da dor do tratamento, ele suportou”.
Quando estávamos deixando a cidade, ele veio atrás, chorando copiosamente com o braço apoiado na tipoia. Essas eram coisas que os alemães não faziam”, acrescenta Valle.

Mas para além da boa fama que conquistaram com os italianos, os brasileiros também foram responsáveis por importantes vitórias em meio à guerra. A maior delas se deu em Monte Castelo — chamado por muitos de “morro maldito” —, em uma campanha que se prolongou por três meses, até a vitória em fevereiro de 1945.
Nela, os Aliados precisavam avançar e chegar até Bolonha, vencendo a chamada Linha Gótica, uma barreira de tropas alemãs. Os brasileiros foram responsáveis por percorrer uma rota exposta ao fogo dos inimigos, mas, após várias tentativas, a missão foi um sucesso.
Outro momento notável foi a rendição da divisão 148 das forças alemãs, que resultou em 14.799 prisioneiros, além da apreensão de 4.000 cavalos, 80 canhões de diversos calibres e 1.500 viaturas, no fim de abril de 1945; apenas três dias antes de, também, a FEB participar da libertação de Turim.
Vitória na guerra
Com o anúncio do fim da guerra, o combatente brasileiro Walfrid de Moraes lembra da felicidade que sentiu. “A alegria da gente foi quando acabou a Guerra. Quando acabou a Guerra todo mundo ficou alegre. Todo mundo gritava, comemorava…”, contou em entrevista exclusiva à equipe do Aventuras na História.
Eu não estava onde fica a tropa, eu estava dando um giro por lá. Eu estava no lugar que tinha um baile. E foi lá que eu soube a notícia. Quando eu estava lá, não só eu, mas os italianos todos começaram a gritar: ‘acabou a guerra, acabou a guerra'”, recorda.
Finalmente, quase um ano após o início da campanha na Itália, os pracinhas foram recebidos com festa no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil. No dia 18 de julho de 1945, há quase exatos 80 anos, os combatentes foram recebidos com o Desfile da Vitória.

Mesmo superando vários momentos difíceis na guerra, Walfrid afirma não se considerar um herói. “Não, não sou herói. Todos nós temos um momento de agir… Eu fiquei tranquilo, eu não fiquei preocupado. A preocupação era a família só. Os Expedicionários falam que heróis são aqueles que não voltaram. Esses que perderam a vida lá, no combate”.
por Éric Moreira https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/ha-81-anos-os-pracinhas-desembarcavam-na-italia-para-entrar-na-segunda-guerra.phtml




