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Witzel afasta advogados e pede adiamento de sessão de impeachment

O Tribunal Especial Misto (TEM), formado por cinco desembargadores e cinco deputados estaduais do Rio, retomou a sessão de julgamento do processo de impeachment do governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, na quarta-feira (07), no Tribunal de Justiça, centro do Rio.

Estava previsto o depoimento do ex-secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, principal delator do esquema de corrupção no Superior Tribunal de Justiça (STJ), porém, antes do início, a maior surpresa foi a chegada de Witzel, que só seria interrogado nesta quinta-feira (08). Ele pediu adiamento da sessão por 20 dias sob o argumento de que destituiu os advogados por divergência na defesa.

“Me encontro impossibilitado de me autodefender. Eu peço encarecidamente que me conceda o prazo de 20 dias para apresentação da defesa”, explicou.

“Essa é a maior causa da minha vida. É o julgamento de 4 milhões de votos que acreditaram em um projeto. Infelizmente a testemunha que é delatora foi escolhida por mim para um cargo de confiança. Eu não poderia deixar de fazer as perguntas ao delator que eu entendo pertinentes para descortinar alguns fatos que tomei conhecimento após alguns anexos serem liberados”, disse Witzel.

Comandado pelo presidente do Tribunal de Justiça, Henrique Figueira, o TEM decidiu manter o depoimento de Edmar, porque Witzel já tinha constituído outros advogados em fevereiro e dois não tinham sido destituídos. Agora, está sendo aguardado o início do depoimento de Santos.

A defesa de Edmar Santos pediu para que ele prestasse seu depoimento de forma reservada para, segundo os advogados, preservar a imagem do ex-secretário. A decisão a favor da defesa foi do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), e biombos foram instalados para deixar Edmar em uma área exclusiva. A imprensa também teve que deixar o local e o depoimento não poderá ser acompanhado.

Relator do processo de impeachment, o deputado Waldeck Carneiro, do PT, disse, antes do início da sessão, acreditar que o julgamento deverá ser encerrado em 30 dias. “Venho construindo o meu voto a cada etapa. Após o interrogatório do governador afastado, defesa e acusação vão ter 10 dias para apresentar as alegações finais. Em seguida, entregarei meu voto e o tribunal julgará”, afirmou Carneiro.

 

Sem indicação política

Sobre a relação com o ex-secretário Edmar Santos, principal delator do esquema descoberto na secretaria estadual de Saúde do Rio de Janeiro, o governador afastado contou que a escolha pelo médico foi sua e não indicação política de alguém.

“O Edmar Santos era diretor do Hospital Pedro Ernesto. Ele é médico, inclusive premiado pela Alerj, tinha um bom trânsito com os deputados, o que é importante nessa área. O Edmar era referendado pela academia e o hospital demonstrava uma administração impecável”, apontou.

 

Segundo Witzel, a análise feita por assessores é que a renda de Santos era compatível com o que declarava: “O Edmar não tinha sinais de desvio ético naquele momento. Todos nós só soubemos que ele tinha R$ 8 milhões no colchão depois que ele entregou o dinheiro”.

Ao se defender, Witzel chorou e acusou o ex-secretário de Saúde, Edmar Santos, de receber propina. “O dr. Edmar não tinha sinais de riqueza. Professor da Uerj, doutor. Nada indicava que o dr. Edmar tinha no colchão da casa dele oito milhões de reais. De onde veio esse dinheiro?”, questionou Witzel.

Antes de começar o interrogatório, Witzel pediu para fazer uma explanação sobre as acusações. Com a voz embargada e chorando, o governador afastado disse:

“O que estão fazendo com a minha família é muito cruel, senhor presidente. É muito cruel o que estão fazendo com a minha esposa. Mas eu decidi deixar a magistratura por um ideal, pra que eu pudesse ajudar o povo do Rio de Janeiro. Por uma mudança. Por um futuro melhor. E eu prometi que a saúde do RJ ia ser uma saúde exemplar. Mas infelizmente, o secretário que escolhi… Nós procuramos escolher alguém na Saúde que fosse qualificado, que conhecesse o RJ. O Edmar tinha recebido a Medalha Tiradentes. A Casa o considerava uma pessoa proba”, comentou Witzel.

Em seguida, o governador afastado voltou a acusar o ex-secretário de Saúde de receber propina em serviços prestados no Hospital Pedro Ernesto. Ele acusou também Edson Torres de ser o patrão de Edmar. “Administrar um estado é definir estratégias. Não sou eu que controlo quem é que vai contratar. Não tem como se reunir com secretários para definir detalhes micros”, argumentou.

Witzel disse que não tinha como saber que Edmar integrava um grupo criminoso.

“As minhas reuniões com os secretários eram reuniões estratégicas, de definições de estratégia. Como foi a questão dos hospitais de campanha. Mas quem vai fazer e quem vai contratar, não depende do governador. E nem pode. O que hoje o ex-secretário Edmar veio falar é uma versão exclusivamente dele de que eu falei pra contratar OS ‘x’, ‘y’, ‘z'”, completou Witzel.

Emocionado, ele destacou sua trajetória no serviço público e disse ter agido sempre por idealismo. “São 35 anos de vida pública movida por um sentimento de ideal, de amor. Não deixei a magistratura para ser ladrão. O que estão fazendo com a minha família é muito cruel. É muito cruel o que estão fazendo com a minha esposa”, disse, visivelmente emocionado.

A sessão do Tribunal Misto de Impeachment (TEM) de quarta é a última etapa antes da conclusão do processo.

 

Nova testemunha

O governador afastado ainda informou que há uma nova testemunha do processo, citada nos depoimentos de Edmar Santos e Edson Torres, que ainda não foi ouvida pelo Tribunal Especial Misto (TEM).

“Eu identifiquei quem efetivamente é o chefe da organização. Isso hoje vai ser explorado aqui. Ainda não foi ouvido um dos participantes dessa organização criminosa, segundo os depoimentos. Essa pessoa, o José Carlos, foi apresentada a Edmar para que ele fizesse parte dessa distribuição de caixinha dentro da secretaria, que, efetivamente eu não faço parte. Jamais fiz parte.”

“Acredito que hoje virá à tona uma verdade de muita tristeza que aconteceu na secretaria de Saúde”, disse, lembrando que ainda há trechos da delação do ex-secretário Edmar Santos que está sob sigilo.

 

Sessões canceladas

As sessões do TEM foram suspensas no dia 28 de dezembro do ano passado por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na ocasião, o ministro atendeu ao pedido da defesa de Witzel e determinou que o interrogatório do governador afastado só poderia ocorrer depois que os advogados tivessem acesso à delação premiada de Edmar.

Na segunda-feira (05), Moraes decidiu que as sessões seriam retomadas mesmo sem que os advogados do governador afastado terem tido acesso à íntegra da delação de Edmar. A defesa de Witzel recorreu à Corte sob o argumento de que só receberam 11 anexos autorizados pelo ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça, que só quebrou o sigilo de partes dos depoimentos de Edmar, quando seria fundamental ter acesso a outros 25 documentos.

Denunciado quatro vezes ao STJ, Wilson Witzel já se tornou réu em uma das ações. Ele foi acusado de ter recebido, em função de desvios na área da Saúde por intermédio do escritório de advocacia da mulher, Helena Witzel, pelo menos R$ 554,2 mil em propina. O governador afastado nega.

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