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Wilson Simonal, o ‘Rei do Suingue’

Se vivo fosse, o saudoso cantor Wilson Simonal completaria 83 anos na última terça-feira (23). Nas décadas de 1960 e 1970, era o único músico negro com status de grande estrela comandando plateias que lotavam ginásios.

Nascido no Rio de Janeiro, Wilson Simonal começou cantando em bailes até fazer sucesso na televisão, como no programa Show em Simonal, que apresentou nos anos 1966 e 1967 na TV Record com direção de Carlos Imperial, um dos responsáveis pelo sucesso do artista. Ele morreu em decorrência de disfunções hepáticas crônicas, aos 61 anos.

O velório, restrito a familiares e convidados, foi um reflexo do isolamento que Wilson Simonal viveu nas últimas décadas. O cantor foi acusado de colaborar com os órgãos de repressão durante o regime militar.

Filho de Maria Silva de Castro, uma cozinheira e empregada doméstica mineira, e do também mineiro Lúcio Pereira de Castro, radiotécnico, Simonal tem entre os principais sucessos o “Balanço Zona Sul”, “Lobo Bobo”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Nem Vem Que não Tem”, “Tributo a Martin Luther King”, “Sá Marina” (que chegou a ser regravada por Sérgio Mendes e Stevie Wonder, como “Pretty World”), “País Tropical”, de Jorge Ben, que seria seu maior êxito comercial, e “A Vida É Só pra Cantar”. Em sua carreira, Simonal gravou 36 discos. O último, “Brasil”, foi lançado em 94.

Simonal deixou três filhos: Wilson Simoninha e Max (Maximiliano) de Castro, que seguiram a carreira musical, e Patrícia de Castro. Simonal estava em seu segundo casamento, com a advogada Sandra Cerqueira.

Em 2012, Wilson Simonal foi eleito o quarto melhor cantor brasileiro de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil.

Simonal e a Ditadura

Em 1970, desconfiado de ser vítima de um desfalque, Simonal demitiu seu contador Rafael Viviani, que moveu uma ação trabalhista contra ele. No ano seguinte, Wilson pediu ajuda a dois amigos policiais para conseguir uma confissão do contador.

Depois de ser torturado nas dependências do Dops, para onde eram levados os presos políticos da Ditadura, Rafael assumiu o desfalque. Tempos depois ele fez queixa do espancamento, o que resultou um processo judicial que condenou Simonal a cinco anos de prisão, cumpridos em liberdade.

Simonal foi acusado de ser um colaborador dos órgãos de repressão, o que nunca foi provado. Mesmo assim, o cantor foi rejeitado pelo cenário musical e da mídia. Shows e contratos foram cancelados, artistas se recusaram a trabalhar ao lado dele e as músicas não tocavam mais no rádio. Esse desprezo, Simonal amargou até o fim da vida. Hoje a família tenta restaurar a imagem de Simonal.

Ostracismo

Com o passar dos anos Simonal tornou-se alcoolista, bebendo principalmente uísque. O consumo da bebida anestesiava as pregas vocais que eram forçadas pelo cantor sem que este percebesse. Com isso, Simonal foi gradativamente perdendo a capacidade vocal, chegando aos anos 90 com a voz muito debilitada. O disco Os Sambas da minha Terra, lançado em 1991, foi gravado apenas graças a uma fã que pagou as horas de estúdio, os músicos e o cachê de Roberto Menescal produzindo e arranjando. O próprio Menescal ofereceu-o a todas as grandes gravadoras brasileiras, mas só conseguiu o lançamento pela Columbia da Venezuela, que era dirigida por um amigo seu na época. Simonal ficou muito deprimido nesse período, recuperando-se apenas com o segundo casamento, com Sandra Cerqueira em 1994.

Em 1994, saiu A Bossa e o Balanço, primeiro registro de Simonal na era do CD, contendo seus principais sucessos e com texto de Ronaldo Bôscoli (que viria a falecer dali alguns meses), a coletânea lançada pela WEA (através do selo “All the Best”) foi o responsável por apresentar Simonal a toda uma nova geração. Com o lançamento da coletânea, Simonal voltou a ter mídia, aparecendo no humorístico Escolinha do Professor Raimundo, de seu amigo Chico Anysio, e tendo a oportunidade de gravar um novo disco para o mercado brasileiro, depois de mais de uma década. O álbum Brasil sairia pela pequena gravadora Movieplay no início de 1995, com arranjos do próprio Simonal e repertório saudosista, variando entre regravações e clássicos do cancioneiro nacional.

No ano seguinte, saiu Bem Brasil – Estilo Simonal, por outra pequena gravadora (Happy Sound), contando com programações de teclados e uma pequena participação especial de Toninho e Sabá, revivendo dois terços do Som Três. O “revival” de Simonal continuava com o convite do produtor Max Pierre, então diretor-artístico da PolyGram, para que César Camargo Mariano produzisse um disco intitulado Casa da Bossa, contando com a participação de músicos consagrados da bossa em duetos com músicos mais novos. César logo pensou em Simonal e marcou para ele um dueto com Ivete Sangalo, mas, devido a problemas com a voz, Sandra de Sá foi quem acabou sendo escalada para o dueto em “Lobo Bobo”.

No dia 25 de março de 2000, Simonal fez o seu último show, no Espaço Memphis, um bar em Moema. Alguns dias depois foi internado no Hospital Sírio-Libanês, recebendo visitas de Jair Rodrigues e, inesperadamente, de Geraldo Vandré.

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