DestaquePolícia

PF mira fraudes bilionárias envolvendo criptomoedas

A Polícia Federal deflagrou, na quarta-feira (25), uma operação para desarticular uma organização criminosa responsável por fraudes bilionárias envolvendo criptomoedas.

A força tarefa, realizada em conjunto com o Ministério Público Federal e a Receita Federal, prendeu o dono da GAS Consultoria Bitcoin, Glaidson Acácio dos Santos, em uma casa de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.

De acordo com as investigações, a empresa, com sede na Região dos Lagos, é responsável pela operacionalização de um sistema de pirâmides financeiras.

Nos últimos seis anos, a movimentação financeira das empresas envolvidas nas fraudes apresentou cifras bilionárias. Aproximadamente 50% dessa movimentação ocorreu nos últimos 12 meses.

Na ação, cerca de 120 policiais federais cumprem sete mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 15 mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e no Distrito Federal.

Os investigados poderão responder, na medida das suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta/temerária instituição financeira clandestina, emissão ilegal de valores mobiliários sem registro prévio*, organização criminosa e lavagem de capitais, e, se condenados, poderão cumprir pena de até 26 anos de reclusão.

O dinheiro apreendido foi colocado em malas, e um carro forte foi necessário para encaminhar a quantia à sede da polícia, na Praça Mauá. “Se pararmos pra olhar dentro do quadro social brasileiro, R$ 20 milhões é uma quantia exacerbada. Mas não podemos afirmar que ela é oriunda de prática criminosa”, afirmou o advogado Thiago Minagé, que defende Glaidson.

“Não é nenhum crime ter um dinheiro em casa, a quantia sendo alta, ou baixa, desde que o dinheiro tenha origem lícita e seja de conhecimento dos órgãos competentes. Eu preciso que o cliente me passe as informações sobre o que foi apreendido. Ele diz que é lícito, e me passará os documentos comprobatórios”, completou o advogado.

Segundo as investigações, a empresa GAS Consultoria, com sede em Cabo Frio, é responsável por um esquema de pirâmide chamado ‘ponzi’, que prometia um “insustentável retorno financeiro sobre o valor investido”. Pessoas aportavam grandes quantidades de dinheiro no esquema, que prometia lucros de 10% ao mês sobre o valor investido. O lucro, no entanto, não chegava – tudo o que entrava na empresa ficava com Glaidson e os sócios, segundo a PF.

A GAS Consultoria atuava no mercado de criptomoedas. Nos últimos seis anos, as empresas envolvidas nas fraudes movimentaram cifras bilionárias, e 50% da movimentação aconteceu no último ano, segundo a Polícia Federal.

A empresa não tem canais oficiais nas redes sociais. Um dos perfis que se identifica como da GAS Consultoria Bitcoins escreveu que “o funcionamento da empresa não se resume a uma pessoa”, e que “os trabalhos seguem normalmente”.

Consultores são orientados a dizer que empresário está solto

Logo após vir à tona a prisão de Glaidson Acácio dos Santos, dono da GAS Consultoria, consultores da empresa foram orientados a dizer para seus clientes que o homem havia sido liberado e que ele apenas foi à sede da Polícia Federal para prestar esclarecimentos. Em áudios e mensagens enviados por WhatsApp, os representantes da empresa afirmam que tudo não passou de um “mal-entendido”.

No WhatsApp, muitas pessoas estão questionando a prisão do empresário. Enquanto uns se preocupam com os valores investidos, outros estão calmos após receberem mensagens afirmando que a prisão do homem é “falsa”.

Em conversa com O GLOBO, um empresário de Cabo Frio afirmou que “os consultores estão tentando ludibriar os investigadores para que eles não retirem todo o dinheiro de uma hora para outra”, causando o desmoronamento da pirâmide.

 

De garçom a milionário

Segundo um registro do Ministério do Trabalho, em 2014 Glaidson Acácio dos Santos recebia cerca de R$ 800 mensais com emprego de garçom na Orla Bardot, em Búzios. Em alguns anos, a vida dele mudou radicalmente: ele virou um milionário que movimentou mais de R$ 2 bilhões na GAS Consultoria.

Em fevereiro deste ano, Glaidson, de 38 anos, fez uma festa de aniversário em em Angra dos Reis com direito a show do cantor João Gabriel. Ele foi preso na manhã desta quarta-feira em condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, em operação da Polícia Federal (PF) para desarticular uma organização criminosa responsável por fraudes bilionárias envolvendo criptomoedas.

Na garagem, Glaidson, que é casado com a venezuelana Mirelis Díaz Zerpa, ostenta carros de luxo. O empresário, entretanto, evita aparecer em público e não é afeito a redes sociais.

Na casa de luxo do empresário também foram apreendidos joias, charutos cubanos, relógios de grife, roupas de alto padrão, bebidas importadas, perfumes caros, além de vários apetrechos ligados ao mercado de Bitcoins, incluindo pen drives específicos para as transações financeiras. A policiais que participaram da operação da PF, Glaidson afirmou não ter cometido crime e não ter feito “nada errado”.

Dois meses depois da festança de aniversário, mais de R$ 7 milhões foram apreendidos em uma operação da Polícia Federal. O dinheiro estava em três malas e, segundo as investigações, seria levado para São Paulo por um casal que trabalha para a Gas Consultoria Bitcoin. O montante estava em um helicóptero.

A ciranda financeira na Região dos Lagos veio à tona após a morte do investidor em criptomoedas Wesley Pessano Santarém, de 19 anos, no começo do mês em São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos. O jovem, dias antes de ser morto, revelou em redes sociais que teria sido procurado por Glaidson para comprar sua carteira de clientes, o que este negou. Para a Polícia Civil, a vítima pode ter sido morta por desavenças nas empresas de criptomoedas ou até mesmo queima de arquivo.

Além da GAS Consultoria Bitcoin, outras dez empresas que oferecem investimentos com lucro alto e rápido na cidade são alvo de investigação da Polícia Civil.

As informações são do Jornal O Globo.

 Penas mais duras contra crimes de pirâmide financeira

“O crime de pirâmide financeira precisa com urgência de uma legislação específica. Os recentes casos envolvendo esses esquemas com o uso de moedas digitais mostram a necessidade de dar um tratamento mais adequado a esse tipo de crime”, afirmou o deputado federal Paulo Ganime (NOVO/RJ) em referência à prisão de um empresário, na quarta-feira (25), no Rio de Janeiro. Ganime é autor, junto com o deputado Felipe Rigoni (PSB/ES), de um projeto de lei para punir com mais rigor quem pratica esse tipo de crime no país.

O PL 2512/2021 propõe enquadrar essa prática criminosa no Código Penal, que estabelece prisão de até 5 anos, além de multa. A proposta é abranger também as fraudes praticadas com criptomoedas. O esquema de pirâmide é proibido no Brasil, mas não possui uma legislação específica capaz de reprimir a prática recorrente. “A proposta é aperfeiçoar a lei penal para atender a complexidade desse crime, que também é praticado com moedas digitais. Hoje, os responsáveis são enquadrados na Lei de Crimes contra a Economia Popular com uma pena irrisória de no máximo dois anos, além de multa. No máximo, podem responder por estelionato, num esforço interpretativo da lei”, justifica Ganime.

O deputado acrescentou que o esquema de pirâmide não se trata do típico estelionato, previsto no Art. 171, do Código Penal, por ser um crime mais complexo que envolve enganar a vítima e colocá-la numa posição de alcançar mais vítimas, potencializando o prejuízo. “Esse crime apresenta sérios riscos à sociedade, ocasionando grandes perdas financeiras de diversas famílias e até casos de depressão e suicídio”.

 

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo