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Maria Alice Vergueiro, a dama do underground e do ‘Tapa na Pantera’

Há um ano o Brasil perdia a atriz Maria Alice Vergueiro, a dama do underground ou ainda a velha dama indigna, conhecida por seu despudor e suas atuações performáticas no teatro brasileiro. Ela inha Parkinson e estava internada no Hospital das Clínicas desde 25 de maio de 2020, onde contraiu pneumonia, falecendo em 3 de junho.

Nascida em São Paulo em 1935, a artista foi uma das fundadoras do Teatro do Ornitorrinco ao lado de Cacá Rosset, companhia que formou um dos repertórios mais populares do teatro brasileiro nos anos 1970 e 1980. Ela é autora de uma carreira amplamente dedicada a um teatro de pesquisa, no qual prevalecem o deboche sobre valores burgueses, o estudo sobre a sexualidade, sobre a estética do grotesco e as teorias voltadas a um teatro popular, derivadas da obra de Bertolt Brecht.

O próprio Teatro do Ornitorrinco, aliás, foi influenciado pelas teorias de Brecht. Além de atuar, Vergueiro dirigiu espetáculos, como “Why the Horse?”, de 2015, escrito em homenagem aos escritores que influenciaram a trajetória da atriz.

No cenário, havia lápides de escritores como Shakespeare, Nelson Rodrigues e Samuel Beckett. Ali, Vergueiro pressentiu a morte e retratou seu próprio velório. Foi sua última criação para o palco.

No início de sua trajetória, nos anos 1960, a atriz teve formação em pedagogia pela Universidade de São Paulo. Depois, passagens por instituições de ensino médio e, posteriormente, a migração para atividades formativas da área teatral. Ela também passou a dar aulas na Escola de Comunicação e Artes da USP.

Na universidade, atuou em uma peça, “Cabaret da Rainha Louca”, em 1974, que chamou atenção por causa de seu temperamento “anárquico”, como ela próprio o definiria mais tarde. Na ocasião, uma comissão de sindicância foi aberta na USP para apurar a performance da atriz nesse espetáculo. Ela contracenava com o ator Cacá Rosset, que havia sido seu aluno, e os dois simulavam sexo anal enquanto gritavam “tudo pelo teatro brasileiro”.

Vergueiro chegou a ser afastada da instituição de ensino na ocasião. Mas, como conta no livro “Teatro do Ornitorrinco”, acabou sendo poupada da expulsão com ajuda de alunos da universidade. Ela fundou o Teatro do Ornitorrinco ao lado de Rosset e Luiz Galizia em 1977. Em 1985, o grupo criou um de seus espetáculos mais populares, “Ubu/Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”, trabalho baseado no ciclo Ubu de Alfred Jarry e que reunia circo, dança, teatro e música, com cenário da arquiteta Lina Bo Bardi.

A peça ficou 27 meses em cartaz e foi vista por mais de 350 mil pessoas. Amigos próximos de Maria Alice Vergueiro já disseram que seu afastamento da pedagogia, ainda em 1974, fez com que ela passasse a se dedicar mais à vida de artista. No ano seguinte, a atriz integrou o elenco de “Galileu Galilei”, peça de Bertolt Brecht montada pelo diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa.

Naquela mesma década de 1970, contava a atriz em entrevistas e rodas de amigos, traficou 4.000 ácidos da Califórnia, e vendeu todo o lote para pagar aluguéis do Teatro Oficina. Ela associava o uso do LSD e de outras drogas à expansão de percepções, algo defendido também por outros artistas que viveram a cultura hippie dos anos 1970 e que se abasteciam de teorias ligadas à neurologia e à ciência e aos enigmas do tarô e das experiências místicas. Vergueiro pertencia a um grupo em que a noção de loucura deixava de ser tratada só como uma questão médica, como disse em entrevista a este repórter.

Recentemente ficou mais conhecida pelo curta-metragem Tapa na Pantera, dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, no qual interpreta uma senhora que fuma maconha há trinta anos e fala sobre suas experiências com a droga, personagem criado pela própria atriz. O curta fez sucesso na internet em menos de uma semana após ter sido posto no site YouTube (sem a permissão dos autores).

Protagonizou em 2016 o curta-metragem Rosinha, dirigido por Gui Campos. O filme recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais, inclusive o Prêmio Especial do Júri no 44º Festival de Gramado.

A atriz morreu no Hospital das Clínicas de São Paulo, aos 85 anos. Foi vítima de pneumonia após ficar internada na UTI com suspeita de coronavirus.[

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