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Inezita Barroso, a dama da música caipira

A cantora e apresentadora Ignez Magdalena Aranha de Lima, mais conhecida como Inezita Barroso, era considerada a dama da música caipira. Ganhou o título de doutora honoris causa em folclore e arte digital pela Universidade de Lisboa e atuou também em espetáculos, álbuns, cinema, teatro e produzindo espetáculos musicais de renome nacional e internacional. Adotou o sobrenome Barroso ao se casar, em 1947, aos 22 anos, com o advogado cearense Adolfo Cabral Barroso, com quem teve uma filha, Marta.

Nascida numa família abastada, apaixonada pela cultura e principalmente pela música brasileira, Inezita começou a cantar e tocar violão e viola desde pequena com sete anos de idade. Estudou piano no conservatório. Foi aluna da primeira turma da graduação em Biblioteconomia da Universidade de São Paulo (USP). Graduou-se em 1947, antes de se tornar cantora profissional.

Carreira

Em 1950, ingressa na Rádio Bandeirante e, no ano seguinte, na Record, em São Paulo. Realiza recitais no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), no Cultura Artística e no Colombo. Grava, em 1953, a “Moda da Pinga” [(Marvada Pinga, de Ochelsis Laureano e Raul Torres (1906-1970)] e os sambas “Ronda”, de Paulo Vanzolini (1924-2013), e “Estatutos da Gafieira”, de Billy Blanco (1924-2011), em 1954.

Atua nos filmes Ângela (1950), O Craque (1953), Destino em Apuros (1953), É Proibido Beijar (1954) e Carnaval em Lá Maior (1955). Recebe o prêmio Saci de melhor atriz por sua atuação em Mulher de Verdade (1953) e o troféu Roquette-Pinto de melhor cantora de música popular brasileira de 1954. Publica o livro Roteiro de um Violão (1956). Grava canções dos poetas Cecília Meireles (1901-1964) – Berceuse da Onda (1956), música de Lorenzo Fernandez (1897-1948) – e Manuel Bandeira (1886-1968), de quem interpreta “Azulão” (1958) e “Modinha” (1959), com Jayme Ovalle (1894-1955). Até o final dos anos 1960 lança alguns de seus maiores sucessos, como o coco “Engenho Novo”, adaptado por Hekel Tavares (1896-1969), a valsa “Lampião de Gás”, de Zica Bergami (1913-2011); as toadas “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) e João Pernambuco (1883-1947); e “Maringá”, de Joubert de Carvalho (1900-1977). Em 1962, grava o LP Clássicos da Música Caipira, com o segundo volume lançado em 1972.

Nos anos 1970, dedica-se a viagens de pesquisa, recitais pelo interior e gravação de programas exibidos em Israel, na antiga União Soviética, na América Latina e nos Estados Unidos. Representa o Brasil com um documentário folclórico na Expo-70, no Japão. Em 1975, grava o LP Inezita em Todos Cantos, no qual inclui pontos de candomblé, sambas anônimos recolhidos no Rio de Janeiro e em Niterói e canções folclóricas da Bahia, do Mato Grosso, de Pernambuco e de Minas Gerais. Em 1978 e 1980, grava os dois volumes da coletânea Joia da Música Sertaneja. Em 1980, passa a apresentar o programa Viola, Minha Viola, com Moraes Sarmento (1922-1998), na TV Cultura. Em 1985, grava o LP Inezita Barroso, a Incomparável, com músicas escolhidas pelos fãs.

Viaja pelo Brasil com o Projeto Pixinguinha, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), ao lado de Oswaldinho do Acordeon (1954). De 1988 a 1993 apresenta o programa Mutirão, na Rádio USP. Leciona folclore na Universidade de Mogi das Cruzes e no curso de turismo da Faculdade Capital. Em 1990, apresenta o programa Estrela da Manhã, na Rádio Cultura AM, que fica no ar por nove anos. Em 1993, grava o CD Alma Brasileira. Com o violeiro Roberto Corrêa (1940) grava os CDs Voz e Viola (1996) e Caipira de Fato (1997). Recebe, em 1997, o prêmio Sharp de melhor cantora regional. Participa do CD Feito na Roça (1998), de Bráz da Viola e Sua Orquestra de Viola Caipira, e de discos de Renato Teixeira (1945) e Jair Rodrigues (1939-2014).

Apresentou por 35 anos, de 1980 até a sua morte em 2015, o programa Viola, Minha Viola, dedicado à música caipira e transmitido pela TV Cultura, de São Paulo. Apresentou também, na emissora SBT, um programa musical que levava seu nome e era exibido aos domingos pela manhã.

Além da carreira artística, desde a década de 1980, Inezita Barroso dedicou-se também a dar aulas de folclore. Lecionava nas faculdades Unifai e Unicapital, onde recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore Brasileiro.

As apresentações de Inezita Barroso nos países latino-americanos e africanos criaram uma aura de sucesso para a cantora, indicada para o Grammy sul-africano na categoria de artistas vocais populares internacionais e regionais. Os concertos de Inezita Barroso em tais países excederam a audiência de outros artistas nacionais e internacionais com maior exposição midiática, adeptos de música denominada “pop”.

Em 2003, foi condecorada pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin com a medalha de mérito “Ordem do Ipiranga”, recebendo o título de comendadora da música folclórica brasileira.

No programa Roda Viva, da TV Cultura, que contou com a presença da cantora como principal entrevistada, em 2004, Inezita Barroso afirmou ser favorável à propagação e troca eletrônica de canções. Afirmava que o uso de canções em formatos digitais em computadores e dispositivos portáteis podia facilitar o acesso dos jovens à cultura e fazia dura crítica à indústria fonográfica, afirmando que a pirataria sempre existiu.

Em novembro de 2014, foi eleita para a Academia Paulista de Letras, ocupando o lugar da folclorista Ruth Guimarães, falecida em maio daquele ano.

Legado

Em 2017 foi tema da 36ª edição da série Ocupação, realizada pelo Itaú Cultural, em São Paulo. A exposição Ocupação Inezita Barroso permaneceu em cartaz de 27 de setembro à 05 de novembro. Em fevereiro de 2019, foi lançado o documentário Inezita documentário contou o pioneirismo de Inezita na música sertaneja e teve depoimentos de José Hamilton Ribeiro, Irmãs Galvão, Eva Wilma, entre outros. O documentário foi exibido pela primeira vez em TV aberta no dia 04 de março de 2020.

Em 19 de fevereiro de 2015 Inezita foi internada no Hospital Sírio Libanês em decorrência de uma insuficiência respiratória. Faleceu na noite de 8 de março, quatro dias após completar 90 anos. O velório foi realizado no Palácio 9 de Julho, em São Paulo. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Gethsemani.

 

 

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