Turismo

Ilha do Corvo, um pedaço de paraíso em Portugal

Declarada Reserva da Biosfera pela Unesco em 2007, a Ilha do Corvo é a menor e mais remota entre as 9 ilhas que compõem o arquipélago dos Açores. O local coleciona diminutivos: a praia de areia tem uma só – que chama, adivinhem, Praia da Areia (o resto da costa é escarpado). Igreja também tem apenas uma, a de Nossa Senhora dos Milagres, de 1795. Padaria? Uma também. Hotel? Idem (além de uma casa de hóspedes). Ambos na única vila da ilha, claro.

Mas os diminutivos param por aí. A natureza do Corvo é superlativa. O verde, dos mais verdes que há. O azul do mar, de uma intensidade sem fim. Tudo em contraste com as casas branquinhas do vilarejo à beira do Atlântico.

Os moinhos de vento fazem parte da paisagem. Eram usados para fazer a farinha de milho que dá origem a uma das iguarias mais famosas de lá: o pão de milho, que costuma escoltar todas as refeições (a outra delícia local é um queijo de vaca feito artesanalmente a partir do leite cru e batizado com o nome da ilha).

Cercada por águas muito profundas e ruidosas, esta pequena ilha foi originada por um vulcão há essencialmente 700 mil anos — hoje em dia, este encontra-se inativo. Do mar, avista-se apenas verde e uma montanha escarpada, mais alta de um lado do que do outro. Denominada Monte Gordo, abriga uma ampla cratera vulcânica conhecida como Caldeirão: um dos postais turísticos da ilha.

 

História

Com 6,24 quilômetros de comprimento e 3,99 de largura (17,1 km²), a Ilha do Corvo está localizada no Grupo Ocidental, sobre a Placa Norte-Americana, a norte da Ilha das Flores. A ela corresponde territorialmente o município de Vila do Corvo, o único dos concelhos da República Portuguesa que não tem qualquer freguesia, já que, nos termos do artigo 136.º do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, este nível de divisão territorial não existe na ilha. As funções dos órgãos de freguesia são assumidos pelos correspondentes órgãos municipais.

As páginas da História situam a descoberta da ilha do Corvo no século XV, algures pela década de 1450, altura em que a ilha das Flores também foi explorada. Foi avistada, pela primeira vez, pelo navegador português Diogo de Teive. Devido ao seu isolamento e à falta de um porto seguro, o pequeno território não despertou interesse imediato nos lusitanos. Só começou a ser explorado a meados do século XVI, quando começaram a ser enviados colonos, alguns vindos das Flores, com o intuito de explorarem o cultivo da terra e a criação de gado.

Ao longo do tempo, principalmente graças à posição geográfica pouco apetecível para a maioria dos navegadores, a ilha do Corvo ficou famosa por ser um dos refúgios favoritos de piratas, saqueadores e corsários. Estes, além de procurarem abrigo nas suas encostas, faziam reféns e saqueavam casas. No entanto, e como os desembarques dos intrusos eram sucessivos, a valentia dos corvinos foi crescendo, acabando por imperar. Há quem refira que os habitantes negociavam com alguns dos incursores. Em troca de proteção e dinheiro, forneciam água, alimentos e homens, reparando os danos dos navios e tratando dos doentes.

A verdadeira resistência corvina deu-se em 1632. Por esta altura, a ilha sofreu duas tentativas de desembarque de piratas, oriundos da Barbária, no norte de África —  que pilhavam, saqueavam e incendiavam povoações no ocidente europeu. A população insular uniu esforços e, recorrendo ao arremesso de pedras, conseguiu repelir os intrusos e dissolveu a tentativa de invasão. Reza a lenda que a sua padroeira, a Nossa Senhora do Rosário, os ajudou de forma incansável. Diz-se que foi responsável por desviar todos os tiros mandados pelos piratas, devolvendo-os —  e em multiplicado! —  para os barcos dos invasores. Desde essa altura, a santa foi rebatizada para Nossa Senhora dos Milagres. A sua memória descansa numa igreja dedicada somente a ela, plantada numa das artérias da Vila do Corvo.

Ali pelo século XIX, a bravura dos corvinos voltou a ser vislumbrada. Segundo os historiadores, um grupo de locais decidiu ir rumo à Terceira — outra das nove ilhas dos Açores — a fim de conseguirem aliviar-se do pesado tributo pago ao donatário da ilha e à coroa portuguesa. O ministro do rei D. Pedro IV, Mouzinho da Silveira, que se encontrava a organizar a luta liberal a partir de Angra (Terceira, Açores), mostrou-se impressionado com as dificuldades suportadas pelos corvinos e pela coragem que demonstraram ao procurá-lo. Deste modo, propôs a anulação do imposto em dinheiro, reduzindo para metade o pagamento em trigo. Pouco tempo depois, a povoação foi elevada a vila e sede de concelho, passando a denominar-se Vila do Corvo — nome que se mantém até ao presente, sendo considerado o local habitado mais isolado de Portugal.

Segundo os registos históricos, os séculos XVIII e XIX foram marcados pela chegada dos baleeiros americanos — embarcações responsáveis pela caça/pesca das baleias — à costa das ilhas do grupo ocidental do arquipélago dos Açores: Flores e Corvo. Deste modo, alguns corvinos iam sendo recrutados para ingressarem na caça ao cachalote, principalmente devido à coragem e à bravura que os afamavam. Na esperança de amealharem algum dinheiro, os habitantes partiam rumo ao mar e faziam-se arpoadores. Em 1864, a ilha do Corvo registava cerca de 1100 habitantes, mas, desde então, o decréscimo populacional tem-se intensificado. Em 80 anos, já no século XX, o território vê os 808 habitantes a caírem para 370. A emigração para os Estados Unidos e para o Canadá é apontada como a principal causa.

Ao longo dos anos, a qualidade de vida da ilha foi-se modernizando. Em 1963, com a chegada da eletricidade, os primeiros cabos de telefone são instalados. Até então, a comunicação com as ilhas vizinhas era feita por rádio (via satélite) e, antes disso, através de sinais de fumo.

Com a inauguração do aeródromo do Corvo, em 1983, a modernização das estruturas consolida-se. A partir da década de 1990, estabelecem-se rotas aéreas regulares com as ilhas das Flores, do Faial e da Terceira. Consequentemente, a ilha do Corvo é inserida na dinâmica insular do arquipélago, deixando de estar tão isolada.

Atualmente, a paisagem natural e a rotina despreocupada ajudam a sintetizar algumas das suas particularidades. Na ilha, além de um verde-viçoso-cor-de-corvo, encontram-se casas que descansam umas nas outras, separadas por vias estreitas e acolhedoras. Todos se conhecem e a entreajuda corvina é sinónimo de hospitalidade (por isso aproveitem, futuros turistas!).

Não há registos de criminalidade e não existem preocupações com desastres rodoviários. Por lá, ecoa um português arcaico, adornado pelo sotaque e pelas expressões locais. Não há espaço para ruídos mais estridentes do que o som das ondas bravas. É uma espécie de recobro natural, capaz de limpar a ansiedade citadina do corpo. Afinal de contas, é a corajosa ilha do ocidente, bafejada pela imensidão (e bravura) do Atlântico; tem tudo para ser rotulada de especial.

 

O que visitar

Centro de Interpretação Ambiental e Cultural do Corvo – Ao chegar a Ilha do Corvo, o primeiro lugar que se deve ir é ao Centro de Interpretação Ambiental e Cultural do Corvo, a fim de obter as informações necessárias sobre a ilha.

O Centro oferece todo o apoio aos visitantes sobre os locais de maior relevância na Ilha do Corvo e os segredos dessa maravilhosa região. Há a possibilidade de visitar a “Atafona da Canada”, a última atafona do Corvo, recuperada pelo Governo Regional dos Açores.

Caldeirão – Considerado o principal elemento vulcânico e paisagístico da Ilha do Corvo, o Caldeirão possui um diâmetro máximo de 2,3 km e profundidade de 320 metros, formado por uma lagoa e 12 cones secundários implantados no seu interior, considerados cones de escória.

É um dos principais pontos turísticos da região e o seu visual panorâmico é de tirar o fôlego de todos visitantes. Rende fotografias surpreendentes!

Praia da Areia / Portinho da Areia – A Praia da Areia, também denominada Portinho da Areia, está situada na costa sul da Ilha do Corvo e é a única praia com areia de toda a ilha, transformando-se numa ótima opção para todos os visitantes que gostam de se banhar, com águas limpas e transparentes.

O interessante desta praia é que seus areais são formados por pequenos grãos cuja origem vem da decomposição das rochas vulcânicas. Vale a pena conferir de perto!

Vila do Corvo – Único local povoado da Ilha do Corvo, composta por um porto e um aeródromo. O que mais desperta atenção são os agrupamentos de casas, tornando o local bem aconchegante e de interessante arquitetura.

A principal atração é a Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, construída no século XVIII e de enorme valor histórico para Ilha do Corvo.

Ecomuseu do Corvo – O Ecomuseu do Corvo é classificado como um museu de território, tendo em vista que, ao contrário dos museus tradicionais, abrange todo o território corvino, bem como todo seu património.

A ideia é recuperar o centro histórico da ilha e promove-la como destino turístico, com apoio da população para o desenvolvimento sustentável.

Império do Divino Espírito Santo – Popularmente conhecido como Casa do Espírito Santo, é um antigo centro social e cultural da Ilha do Corvo registrado na história e também um local de convívio, de festas e procissões.

Sua construção é datada no século XIX, com uma arquitetura feita em alvenaria de pedra e com cariz religioso. Atualmente, o local serve para comemorações oficiais, como comunhões e aniversários.

A tradicional Festa Divino Espírito Santo ocorre todos os anos no domingo de pentecostes e atrai várias pessoas.

Moinhos de Vento – São três moinhos construídos entre o século XIX e século XX fixados no Caminho dos Moinhos, na Vila do Corvo, e que recebem proteção especial do Governo Regional dos Açores, considerados património histórico.

Todos os anos o local recebe o Festival dos Moinhos, que vem atraindo turistas de todas as partes. A festa é um sucesso e de entrada gratuita.

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