‘Destruíram minha família’, diz viúva de músico que teve carro fuzilado pelo Exército

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Com projeto anticrime de Sérgio M oro, caso não poderia ser julgado por Militares

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, disse em reunião na terça-feira, na Câmara dos Deputados que o caso dos 80 disparos feitos por militares contra um carro no Rio não se encaixa em sua proposta de excludente de ilicitude. Ela integra o projeto anticrime que tramita no Congresso Nacional.

Segundo o ministro, os autores dos tiros não poderiam ser beneficiados com a redução da pena até a metade ou até com a exclusão total da punição porque não agiram por escusável medo, surpresa ou violenta emoção. A fala do ministro foi confirmada pelo deputado Lafayette de Andrada (PRB-MG) e pelo ministério.

No domingo, dia 7, dez militares dispararam mais de 80 tiros contra um veículo em Guadalupe, na zona norte do Rio, que supostamente foi confundido com um automóvel em que estariam criminosos. O músico Evaldo Rosa dos Santos, de 46 anos, morreu no local e duas pessoas ficaram feridas.

“Obviamente que esse tema foi tratado e ele não se encaixa no que o projeto propõe. Ele (Moro) fala em legítima defesa e naquele caso de forma nenhuma ocorreu episódio de legítima defesa”, disse Andrada a jornalistas após a reunião. Até o momento, as informações recolhidas apontam para um equívoco dos militares.

O ministro Sergio Moro falou aos integrantes do grupo de trabalho que analisa projetos de lei que pretendem fazer algum tipo de alteração na legislação penal. O grupo foi criado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM). O deputado esteve na reunião e chegou a ser questionado se o caso poderia acelerar a tramitação de algum projeto.

Sem responder diretamente, Maia disse que a Casa aprovou diversos projetos de segurança pública nos últimos anos e a solução vai além de leis. ” O Estado brasileiro precisa ter uma estrutura melhor para investigar e avançar na prevenção ao crime. A gestão é o fundamental.”

‘Não nos procurou’

Aos gritos de “Justiça” e “assassinos”, centenas de pessoas acompanharam o sepultamento do músico Evaldo Rosa, de 51 anos, na manhã de quarta-feira (10) no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, Zona Norte do Rio.

A viúva, Luciana dos Santos Nogueira, que chegou a precisar de atendimento durante o velório, estava inconsolável agarrada ao caixão. Luciana passou mal e precisou ser amparada por familiares. Os amigos cantaram sambas e aplaudiram Evaldo, chamado de Manduca.

Segundo os amigos e familiares que lotaram a capela do cemitério, o filho de Evaldo, de 7 anos, já sabe da morte do pai e está inconsolável.

Profundamente abalada, a viúva afirma que não sabe mais o que fazer para acalmar o filho, que chama o pai o tempo todo. “O Exército não nos procurou. Não sei como classificá-los. Destruíram minha família, o amor da minha vida, o meu melhor amigo. Meu Deus, meus Deus, meu filho tá mal. Meu filho só grita”, conta desesperada.

Além do filho pequeno, que estava com ele no carro, Evaldo adotou outras três crianças, que hoje já são adultos. Integrantes do grupo Remelexo da Cor, do qual Evaldo fez parte, cantaram várias vezes a música “Amizade”, de Arlindo Cruz.

A família do músico, teve ainda o sofrimento agravado na terça-feira devido à falta de gavetas disponíveis para enterrá-lo. Por esta razão, o sepultamento foi apenas no dia seguinte.

Evaldo dos Santos Rosa teve o carro metralhado por militares do Exército na tarde de domingo (7), em Guadalupe, quando ia para um chá de bebê com a família.

“Ele era um trabalhador. Foram muito mais que 80 tiros. Até agora nenhuma autoridade procurou a família. Não há nenhuma assistência. Queremos saber se isso é o modus operando do Exército. Tenho um carro semelhante ao do Evaldo e também sou negro”, disse Carlos Renato Marques Sampaio, amigo de Evaldo.

“Foram 80 tiros! Além de atirar, eles (militares) não socorreram e ainda debocharam da família. Se ele tinha um carro bonito foi porque era um trabalhador. Nem sei se serão punidos pelo que fizeram. Vão ficar presos administrativamente e depois responderão em liberdade”, disse Elisabeth.

O advogado João Tancredo, que representa a família do músico Evaldo, reafirma que vai pedir a transferência do caso para a justiça comum.

“A lei de 2017 fala que o caso é investigado pela Justiça militar quando o caso ocorre durante uma operação, o que não foi o caso. Eles, os militares, não estavam realizando nenhuma ação no momento”, disse João Tancredo.

O advogado disse que entrará na justiça com uma ação pedindo indenização para a família do músico.

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