Nova administração do Hospital da Mulher toma posse em meio ao caos

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Envolto por investigações na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e na Câmara Municipal de Cabo Frio, na Região dos Lagos, que apuram recentes mortes de recém-nascidos, o Hospital da Mulher conta com nova administração. Na terça-feira (8), a ginecologista e obstetra Tânia Lydia Matosinhos Lowen Pires assumiu a diretoria geral da unidade. Também foram empossadas Cristina do Vale Faria, responsável pela diretoria técnica; e a enfermeira Simone Sant’Anna pela diretoria administrativa.

Formada em Medicina desde 1984, já tendo inclusive assumido a função de diretora do Hospital por dois anos e meio, a Dra. Tânia Lydia espera contribuir com o bom funcionamento do Hospital, o qual passará novamente a dirigir. “Tenho um olhar global dos problemas enfrentados pela unidade e espero contar com todas as áreas da Saúde para solucioná-los”, afirma a médica.

Agora, a frente da unidade, Lydia tem nas mãos uma bomba-relógio que já está a ponto de explodir. No último domingo (6), cerca de 20 pessoas tentaram invadir a unidade. A confusão ocorreu após a morte de um bebê no sábado (6). O recém-nascido ainda foi enterrado como indigente e desenterrado para que a família pudesse vesti-lo e fazer um sepultamento digno.

Segundo os pais da criança, Renato Barbosa Machado, de 26 anos, e Daniele da Silva Machado, de 23, houve negligência dos médicos que se negaram a fazer o parto ao longo da semana, quando eles buscaram atendimento e justificaram que não estava na hora do bebê nascer.

“O neném lutou, lutou, lutou ali para vir ao mundo e ele [médico] não fez a cesárea nela, entendeu? Ele [o bebê] tava colado, quando eles [os médicos] tiraram ele, o neném, nem chorar chorou. O meu filho nasceu morto” , disse Renato.

A família relata que Daniele teve uma gravidez saudável e passou por todo o processo de pré-natal. Na semana passada, começou a sentir dores e procurou o Hospital da Mulher.

Além do Hospital da Mulher, Renato conta que também buscaram atendimento no Hospital Missão de São Pedro da Aldeia, onde foram informados de que a unidade não poderia interná-la já que ela era moradora do município vizinho. Em ambos os locais, segundo Renato, os médicos avisaram que deveriam esperar, mesmo com Daniele sentindo muita dor e já tendo completado as 42 semanas de gestação. Depois de muita insistência, ela foi internada no Hospital da Mulher por volta das 23h de sexta-feira (5) e passou pela cesárea na manhã de sábado.

No atestado de óbito, consta que o bebê morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória, anoxia uterina e infecção amniótica.

Enterro

Os transtornos para a família não pararam por aí. Segundo Renato, quando ele estava tentando liberar a documentação no hospital para realizar o sepultamento, descobriu que a criança já havia sido sepultada no cemitério do bairro Jardim Esperança.

“O meu filho foi enterrado como indigente. Nem a roupa que tínhamos separado para ele usar, assim que saísse da maternidade, foi colocada nele. Ele foi enterrado enrolado em um pano!”, lamentou o pai.

Inconformada com a situação, a família foi ao cemitério, onde a criança foi desenterrada e os parentes colocaram a roupa nela, que foi sepultada novamente.

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde disse que o “procedimento padrão em caso de morte de recém-nascido foi cumprido”. “O Hospital da Mulher emitiu a certidão de óbito para a família, que foi ao cartório pegar a guia de sepultamento – a mesma foi entregue à funerária. O procedimento padrão requer que esta guia seja apresentada de novo à unidade de saúde, para que o corpo seja liberado. Assim foi feito; só que neste caso, os representantes da funerária é que foram requerer o corpo. O sepultamento não é de responsabilidade do Hospital e sim da funerária”. Diz ainda a nota: “É importante ressaltar que nos colocamos à disposição dos familiares para esclarecimentos e somos solidários à dor da perda. Mas não podemos apoiar ações que depredem o patrimônio público e coloquem em risco servidores e até pacientes que estejam na unidade”.

Já a Secretaria de Saúde de São Pedro da Aldeia informou ter solicitado mais informações à direção do Hospital e Maternidade Missão de São Pedro sobre a paciente citada e segue aguardando os esclarecimentos.

“Vale destacar que a gestão da unidade não é da prefeitura aldeense, trata-se de um hospital filantrópico, classificado como hospital geral e com convênio municipal. A Secretaria destaca que a gestão pública aldeense preza pelo melhor atendimento para a população”, diz nota.

Na segunda-feira (8), o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) informou que irá apurar todos os fatos os ocorridos.

Investigações

Desde novembro do ano passado, 26 recém-nascidos morreram na unidade e os óbitos são investigados por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e outra CPI na Câmara Municipal de Cabo Frio.

Na semana passada, logo após prestarem depoimentos na Alerj, os ex-diretora administrativa, Lívia Natividade, e o ex-diretor-geral, Dr. Paul Hebert Dreyer, pediram afastamento dos cargos. Segundo a Prefeitura, o motivo da solicitação é para evitar qualquer suspeita de interferência nas investigações das CPIs.

No depoimento, Paul Hebert alegou que as mortes registradas estão relacionadas a doenças, como sífilis e hipertensão, e ao consumo de drogas ilícitas. Ele afirmou que a ausência ou a má realização do acompanhamento pré-natal também foi um fator decisivo.

“Eram fetos que já estavam em um sofrimento crônico que não havia sido diagnosticado. As mulheres chegavam no hospital e não podíamos operá-las imediatamente. Segundo o protocolo, era preciso estabilizá-las primeiro e, muitas vezes nesse intermédio, os filhos faleceram porque eles já estavam em sofrimento fetal”, justificou.

No entanto, para a presidente da comissão, deputada Renata Souza (Psol), a justificativa de Hebert não condiz com os relatos e os documentos apresentados pelas mães que perderam seus bebês. “Culpabilizar a vítima por perder o seu filho é um equívoco. A gente precisa saber se foi antes, durante ou depois do parto que esses bebês tiveram um sofrimento que os levaram à morte. Nós tivemos acesso a diversos exames pré-natal dessas mulheres e todas tinham a indicação de que seus filhos nasceriam saudáveis. A gente precisa saber o que está acontecendo”, declarou.

A parlamentar solicitou ao hospital o envio de documentos, entre eles os prontuários dos 16 casos de falecimento, que serão analisados por uma equipe técnica de apoio à CPI. Souza também solicitou o livro com os registros de entrada na instituição desde novembro de 2018, o relatório de fiscalização do Conselho Municipal e as atas das reuniões da comissão interna do hospital que atestou a causa das mortes.

A comissão convidará para esclarecimentos o secretário municipal de Saúde, Márcio Mureb, e estuda convidar o prefeito de Cabo Frio, Adriano Moreno. O Hospital da Mulher realiza de 150 a 200 partos por mês e, segundo o diretor Helbert, a taxa de óbitos dos primeiros meses de 2019 se assemelha ao registrado em anos anteriores, sendo 50 mortes em 2017 e 53 em 2018.

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