Guerra de facções preocupa em Angra

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Há quase 15 dias, os moradores de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, vivem com medo por causa de uma disputa entre duas facções criminosas por territórios de venda de drogas. Os confrontos entre traficantes, tiroteios, operações policiais e mortes estão causando pânico, fechando escolas e ameaçando o turismo na cidade.

Em algumas áreas de risco, o início das aulas foi adiado. Hotéis e pousadas estão com procura abaixo do esperado para a temporada.

Na quarta-feira (07), uma nova troca de tiros entre traficantes deixou dois moradores feridos. O tiroteio aconteceu nos bairros Morro da Glória II e Sapinhatuba I, mas segundo moradores, pôde ser ouvido do Centro da cidade. Eles afirmam que os criminosos estão pelas ruas da cidade ameaçando a população.

Reflexos da violência

Nas comunidades com maior registro de violência em Angra, três escolas não funcionaram no primeiro dia do ano letivo, na segunda-feira (05): Escola Municipal Princesa Izabel e Escola Municipal Professora Tânia Rita de Oliveira, no bairro Belém; e Escola Municipal Antônio Joaquim de Oliveira, no Sapinhatuba I. De acordo com a prefeitura, as demais unidades tiveram aula normalmente.

O turismo local também tem sentido os impactos da crescente criminalidade que atingiu o município nas últimas semanas. As notícias sobre tiroteios e briga entre facções estão aos poucos ofuscando a imagem de paraíso litorâneo de Angra dos Reis.

Hotéis e pousadas estão com procura abaixo do esperado para a temporada — um caso confirmado de morte por febre amarela no município também tem deixado turistas apreensivos. No sul do Rio já foram registradas 10 mortes pela doença.

Para os empresários, a situação pode significar sérios prejuízos no período de alta temporada do litoral. A cidade conta com 262 meios de hospedagem e a taxa de ocupação está em torno dos 73% nos chamados ‘corredores turísticos’, que são os destinos procurados por quem visita a cidade.

De acordo com o presidente da Turisangra, João Willi Seixas Peixoto, os turistas estão sendo orientados a não entrar nas comunidades em confronto e a evitar pegar orientação com qualquer pessoa.

Segundo a prefeitura, a programação para o Carnaval 2018 na região não sofreu alteração e segue até a terça-feira (13). Um reforço foi montado com mais de 20 agentes do Batalhão da Polícia Militar para atuarem no entorno do Centro, Japuíba e Sapinhatuba.

Moradores em pânico

O impacto da ação dos bandidos é sentido também por quem mora nas áreas de confronto. Durante a disputa por pontos de tráfico de drogas, alguns moradores foram obrigados pelos bandidos a deixarem as casas. Acuados, eles bloquearam a BR-101 (Rodovia Rio-Santos) para chamar a atenção das autoridades para a constante violência que cerca as comunidades.

Na segunda-feira (05), motoristas que passavam pela Rio-Santos precisaram voltar de ré por conta de um tiroteio no bairro Sapinhatuba.

Mortes em operações policiais

Oficialmente, as polícias Militar e Civil falam em nove mortes – todas de bandidos que entraram em conflito com agentes durante as operações nas comunidades. As disputas começaram no dia 26 de janeiro e se concentram principalmente nos bairros Belém, Sapinhatuba I e Sapinhatuba II.

A Polícia Militar começou as operações em 29 de janeiro. No dia seguinte, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) entrou no bairro Belém depois que traficantes de facções rivais começaram um conflito. Cinco suspeitos morreram nesta ação.

No dia 31 de janeiro, o Batalhão de Choque da Polícia Militar ocupou o bairro Camorim Grande. Três suspeitos foram atingidos e levados para o Hospital Geral da Japuíba, onde dois deles morreram. Em outra ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Batalhão de Polícia de Choque e do Batalhão de Ações com Cães (Bac) foram registradas duas mortes.

Todas as mortes estão dentro dos números oficiais contabilizados pela PM e pela Polícia Civil. Mas há outros dois casos sendo investigados: na noite de sexta-feira, um homem foi morto no bairro Japuíba, e outro, no Promorar. Na ocasião, a PM informou que eles tinham envolvimento com o tráfico de drogas e teriam sido mortos por traficantes de uma facção rival.

O delegado titular da 166ª Delegacia de Polícia, Bruno Gilaberte, acredita que este tipo de confronto sempre existiu nas comunidades de Angra dos Reis, tendo como protagonistas as mesmas duas facções rivais, que se originaram no Rio e expandiram para o interior do estado: Terceiro Comando e o Comando Vermelho.

“Isso não é uma novidade em Angra, não é algo que começou esse ano ou ano passado. Há anos já existe essa ocupação de comunidades de Angra por facções criminosas. E em anos anteriores já houve uma tentativa de tomada [de território]. Então, não é algo recente”, afirmou.

Segundo o delegado, o que determina essa briga entre facções é o mesmo motivo que determina a guerra entre facções no Rio.

“São facções rivais que disputam território para a manutenção de um comércio ilegal lucrativo, ou seja: visam lucro. A intenção é expandir o território do seu grupo criminoso para alcançar uma lucratividade maior. As facções envolvidas são o Terceiro Comando e o Comando Vermelho, que há décadas se encontram em conflito no estado do Rio como um todo”, explicou Gilaberte.

Para o delegado, a diferença é que agora a guerra está reforçada por armamentos de grosso calibre, o que encoraja traficantes dos dois lados a resistirem à ação dos policiais, inclusive de tropas de choque, quando ocorrem as operações.

“O que há de fato [hoje em dia] é uma oposição mais intensa à intervenção policial. Dessa vez, houve a intervenção mais intensa das tropas de choque. São tropas que normalmente não atuam no interior do estado. E mesmo com a atuação dessas tropas especializadas houve uma oposição muito intensa”, disse.

“Há armas de grosso calibre com maior circulação nessas comunidades. Isso causa um recrudescimento do confronto e, consequentemente, há uma letalidade mais intensa”, afirmou o delegado.

4ª cidade com mais tiroteios no estado

Angra dos Reis está entre as cinco cidades do estado que mais registraram tiroteios nos últimos seis meses, de acordo com um aplicativo que monitora a violência no Rio de Janeiro.

Os dados levam em consideração o período entre 1º de junho de 2017 e 21 de janeiro de 2018. No ranking dos 10 mais, Angra aparece em quarto com 59 registros de trocas de tiros, atrás de Rio de Janeiro, Duque de Caxias e São Gonçalo.

Fica na frente também do Complexo do Alemão, que teve 53, e do Complexo da Maré, onde foram registradas 47 trocas de tiros. Os dois locais são considerados de alto risco na capital.

 

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